segunda-feira, 18 de abril de 2011

LUCRÉCIA BÓRGIA: LINDA E FATAL

Lucrécia Borgia ficou conhecida com uma das mulheres mais cruéis da história. Mas, muito do que dizem a seu respeito pode ser creditado muito mais a seu pai e seus irmãos do que a ela mesma.

Filha de Joana Cattanei e do cardeal Roderigo Bórgia, que mais tarde tornou-se o Papa Alexandre VI, Lucrécia teve uma vida cheia de episódios de intriga, assassinatos, luxúria, devassidão e incesto.

Enterrou maridos e acabou com a fama de envenenar homens com um "pó" que guardava num compartimento secreto em seu anel. Nunca houve evidências que provassem isso. Entretanto, não se pode negar que assassinatos foram cometidos tendo Lucrécia como pivô.

Confira alguns fatos e escândalos que marcaram a vida dessa bela mulher do século XV!

Desde pequena seus irmãos travavam uma disputa por sua preferência.
Aos treze anos já era uma mulher fatal que chamava a atenção de qualquer homem.
Em seu primeiro casamento (aos 13 anos), Lucrécia foi ignorada pelo marido e passou o tempo todo da festa alternando a companhia de seus irmãos que recitaram a ela poemas de amor quando ela se foi para o leito nupcial com o marido.
Seu primeiro casamento não se consumou de imediato, pois ela era considerada muito jovem, e Lucrécia se manteve virgem por dois anos aguardando o marido. Não sem, entretanto, curtir as orgias nos aposentos do pai e dos irmãos, no Vaticano. Nessa época, os boatos sobre incesto aumentavam cada vez mais e Lucrécia era acusada de manter relações sexuais com os irmãos e, até, com o próprio pai.
Seus irmãos planejaram o assassinato de seu marido para que ela pudesse se casar com um homem mais rico. Ela descobriu e aconselhou-o a fugir.
Após esse episódio, a jovem passou uma temporada num convento, enquanto seu pai e irmãos planejavam o divórcio alegando que seu marido era impotente e que o casamento não tinha se consumado. Nesse período, Lucrécia fica grávida e exitem inúmeras especulações sobre a paternidade: alguns dizem que o responsável foi um de seus irmãos, outros, um criado.
Após um jantar na casa da mãe, um dos irmãos de Lucrécia aparece morto num rio. O assassino? O outro irmão motivado por inveja da posição social e pelo ciúmes doentio que sentia de Lucrécia, que era mais próxima do morto.
Depois de assassinar o próprio irmão, César Bórgia matou um criado que teve um caso com sua irmã.
Mesmo grávida de seis meses, Lucrécia consegui convencer a todos que era virgem (escondendo sua situação sob várias saias) e se divorciou do primeiro marido.
O bebê foi reconhecido por César Bórgia, como sendo seu filho.
Mais uma vez enciumado e sangüinário, César assassina o segundo marido de Lucrécia.
A culpa recaiu sobre Lucrécia e diziam que seu marido tinha sido vítima de um de seus venenos (acusação sem nenhum fundamento).
O satirista Filolia difamava Lucrécia e sua família aos quatro ventos. Seu destino? Assassinado e mutilado.
Lucrécia casa-se pela terceira vez. Numa ocasião, cai doente e César ameaça o marido, dizendo que se algo acontecesse à irmã, o sangue dela não seria o único a ser derramado por lá. (Ele desconfiava que o marido a estaria tentando matar.)
César Borgia foi a inspiração de Maquiavel para o livro "O Príncipe".
Enfim, não se pode dizer que Lucrécia Bórgia tenha sido uma santa, por isso ela conquistou seu espaço aqui no "Malvadas". Entretanto, também não foi o demônio que pintam mundo afora. Digamos que ela tenha tido muito mais fama que atitudes maldosas de verdade. Mas, como diz o velho ditado: "quem tem fama, deita na cama."

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Terra em Transe: a dicotomia de Paulo Martins


No filme "Terra em Transe" (1967), obra-prima de Glauber Rocha, Paulo Martins(Jardel filho) é um jornalista que pode ser classificado, grosso modo, como um "idealista". Inicialmente ligado à figura política conservadora de Porfírio Diaz (com quem forma, juntamente com Silvia - personagem de Danuza Leão, um triângulo amoroso), Martins, após sucessivos exames de consciência é gradativamente cooptado pela ativista Sara (Glauce Rocha) a apoiar o populista Felipe Vieira (José Lewgoy), na tentativa de criar um movimento dito "revolucionário" que tem como objetivo reduzir a miséria e a injustiça em Eldorado.
Há um diálogo no filme, de grande simbolismo, que representa a dualidade dessa personagem. Em um ambiente de grandes incertezas políticas, Sara pergunta:
Sara: _ Por que Paulo? por que você se lança nessa desordem?
Paulo (rindo amargamente): _ Que desordem?
Sara (observando a multidão): _ Olha!... Vieira não pode falar.
Paulo: _E durante mais de um século, ninguém falará!
Sara: _ Você joga Vieira no abismo! (...)
Paulo: _ Eu? ... o abismo está aí, medonho. Todos nós estamos nos dirigindo para ele...
Sara se atira nos braços de Paulo, implorando:
Sara: _ Não é culpa do povo! Não é culpa do povo! (...)
Paulo: _ Mas o povo corre atrás do primeiro que lhe erga uma espada ou uma cruz (...)
O pessimismo e, ao mesmo tempo, ambiguidade política de Paulo Martins é uma prova inconteste da duplicidade de sentido proposta por Glauber para constituir uma das personagens mais marcantes de todos os tempos no cinema nacional. No entanto, o mau uso da imagem (com toda sua dinamicidade), com a intenção de promover a afirmação de classes é tendências políticas é lamentável.
Quando Jefferson Domingos de Assunção escreve no site, www.cineplayers.com, que "Terra em transe, de Glauber Rocha, mais do que qualquer outro, é um filme fruto de seu tempo, a revoltosa década de 1960 (...) considerado revolucionário demais e um perigo para a juventude da época, socialista e antiimperialista" ignora que o gênio de Glauber foi capaz de produzir uma obra que está além de definições polarizadas politicamente. Acerca da personagem de Paulo Martins, por exemplo, bem definiu Hélio Pelegrino em artigo no velho JB:
"Há o poeta, Deus meu, o sórdido, o belo, o generoso, o ingênuo, o puro e maculado poeta Paulo Martins, homem dividido como um pedaço de víscera é dividida por uma faca, homem que sangra, e sonha, se encontra, e se aliena, e dança, e regouga, e tenta, e busca, e ama, e rodeia. Paulo Martins é a consciência em transe de Eldorado". Hélio Pellegrino, Jornal do Brasil, Rio, 30/08/81
Desse modo, é incoerente com a proposta de Glauber a tese que sustenta Terra em Transe como um manifesto revolucionário, parte integrante da geléia-geral das esquerdas na década de 60 no Brasil. O que Glauber propõe é ir além da mera dicotomia entre esquerda e direita: pensar a decadência das estruturas políticas do país, assim como o papel dos atores políticos, a partir das fraquezas e incoerências que se evidenciam no momento da ação política.
Pensemos, portanto, a aplicação na atualidade desse conceito.