
Por Silvia La Regina - UFBA
Hoje em dia, após muitos anos de uma intensa querelle, Gregório de Mattos e Guerra é unanimemente reconhecido como o maior poeta brasileiro do século XVII, assim como um dos mais importantes escritores barrocos de expressão portuguesa. A bibliografia sobre o autor inclui mais de trezentos títulos e, alem de numerosas edições nacionais das obras do poeta, existem traduções para vários idiomas, como o alemão, o francês, o italiano e ate o chinês. Infelizmente, apesar de sua importância, a obra de Gregório de Mattos ainda não foi objeto de uma edição critica, ou seja, não nos é possível saber exatamente quanto do que leva o seu nome realmente foi escrito por ele; assim como existem varias versões, ou variantes, de muitos dos poemas. Isso porque Gregório não editou nada durante sua vida (assim como o grande espanhol Quevedo, um de seus mestres ideais) e seus poemas circularam manuscritos no Brasil (onde não podia haver imprensa) e em Portugal, onde possivelmente a censura tenha impedido a publicação de obras por muitos lados irreverentes e muitas vezes obscenas. Assim posteriormente admiradores da obra gregoriana reuniram os poemas em códices manuscritos, hoje espalhados entre o Brasil, Portugal e os Estados Unidos (atualmente, existem 22 códices em 35 volumes), porém sem que houvesse controle sobre o que era e o que nao era verdadeiramente do autor, cuja fama póstuma permitia que se lhe atribuíssem algumas obras talvez de outros poetas menos conhecidos. Com certeza porém muitíssimas das obras que levam o seu nome foram escritas por ele, e caracterizam um versejador versátil e fluente, extremamente talentoso, de grande cultura, supostamente autor de mais de 700 poemas que, com a exceção da épica, abrangem praticamente todos os gêneros e estilos poéticos. A poesia satírica - a que o tornou mais famoso - a religiosa, a amorosa, a encomiástica, os relatos de pequenos ou grandes acontecimentos da vida colonial: todos estes gêneros foram praticados pelo poeta com êxitos igualmente válidos, ainda que se conheça mais a vertente satírica, especialmente quando aliada à componente erótica (que alguns no passado já chamaram de "pornográfica"). Neste âmbito, são justamente famosas suas sátiras a cidade da Bahia, aos governantes corruptos e, entrando aqui na esfera erótica, a freiras e padres muito licenciosos, assim como há uma série de poemas dedicados a diferentes prostitutas da cidade. Sua linguagem neste contexto torna-se particularmente crua e às vezes violenta.
Gregório compôs sonetos, décimas, motes e glosas, romances, só para citar os metros mais conhecidos, com grande variedade de rimas e ritmos, introduzindo na linguagem poética termos tupi e africanos ao mesmo tempo em que não renunciava às referencias clássicas e eruditas indispensáveis para o bom poeta da época . Como era inevitável, foi muito influenciado pela obra dos castelhanos Góngora e Quevedo, e traduziu obras dos dois mestres, assim como, fiel ao cânon retórico, imitou e recriou composições deles . Por isso durante muito tempo, e até poucos anos atrás, foi chamado de plagiário por quem não levava em conta o fato disto ser prática plenamente lícita e comum naquela época, e aliás indispensável para o poeta culto .
Obras de Gregório de Mattos.dir. de Afrânio Peixoto. 6 vols.Rio: Publicações da Academia Brasileira 1923-1933 (Sacra, I, 1929; Lírica, II, 1923; Graciosa, III, 1930; Satírica, IV e V; Ultima, 1933).
Poemas Escolhidos. Seleção, introdução e notas de José Miguel Wisnik.Sao Paulo: Cultrix,1976.
Obra Poética. Ed. James Amado, Notas de E. Araújo.2 vols. Rio: Record, 1990, 2ª edição.
Gregório de Mattos. Seleção de textos, notas, estudo biográfico, histórico e crítico por Antonio Dimas, São Paulo: Nova Cultural (Literatura Comentada), 1988.
Gregório de Mattos. Senhora Dona Bahia: Poesia Satírica. (seleção, introdução, estudo crítico, notas de Cleise Furtado Mendes, Salvador : EDUFBA, 1996.



