quarta-feira, 13 de agosto de 2008

UM POETA AFORTUNADO


Por Silvia La Regina - UFBA

Hoje em dia, após muitos anos de uma intensa querelle, Gregório de Mattos e Guerra é unanimemente reconhecido como o maior poeta brasileiro do século XVII, assim como um dos mais importantes escritores barrocos de expressão portuguesa. A bibliografia sobre o autor inclui mais de trezentos títulos e, alem de numerosas edições nacionais das obras do poeta, existem traduções para vários idiomas, como o alemão, o francês, o italiano e ate o chinês. Infelizmente, apesar de sua importância, a obra de Gregório de Mattos ainda não foi objeto de uma edição critica, ou seja, não nos é possível saber exatamente quanto do que leva o seu nome realmente foi escrito por ele; assim como existem varias versões, ou variantes, de muitos dos poemas. Isso porque Gregório não editou nada durante sua vida (assim como o grande espanhol Quevedo, um de seus mestres ideais) e seus poemas circularam manuscritos no Brasil (onde não podia haver imprensa) e em Portugal, onde possivelmente a censura tenha impedido a publicação de obras por muitos lados irreverentes e muitas vezes obscenas. Assim posteriormente admiradores da obra gregoriana reuniram os poemas em códices manuscritos, hoje espalhados entre o Brasil, Portugal e os Estados Unidos (atualmente, existem 22 códices em 35 volumes), porém sem que houvesse controle sobre o que era e o que nao era verdadeiramente do autor, cuja fama póstuma permitia que se lhe atribuíssem algumas obras talvez de outros poetas menos conhecidos. Com certeza porém muitíssimas das obras que levam o seu nome foram escritas por ele, e caracterizam um versejador versátil e fluente, extremamente talentoso, de grande cultura, supostamente autor de mais de 700 poemas que, com a exceção da épica, abrangem praticamente todos os gêneros e estilos poéticos. A poesia satírica - a que o tornou mais famoso - a religiosa, a amorosa, a encomiástica, os relatos de pequenos ou grandes acontecimentos da vida colonial: todos estes gêneros foram praticados pelo poeta com êxitos igualmente válidos, ainda que se conheça mais a vertente satírica, especialmente quando aliada à componente erótica (que alguns no passado já chamaram de "pornográfica"). Neste âmbito, são justamente famosas suas sátiras a cidade da Bahia, aos governantes corruptos e, entrando aqui na esfera erótica, a freiras e padres muito licenciosos, assim como há uma série de poemas dedicados a diferentes prostitutas da cidade. Sua linguagem neste contexto torna-se particularmente crua e às vezes violenta.

Gregório compôs sonetos, décimas, motes e glosas, romances, só para citar os metros mais conhecidos, com grande variedade de rimas e ritmos, introduzindo na linguagem poética termos tupi e africanos ao mesmo tempo em que não renunciava às referencias clássicas e eruditas indispensáveis para o bom poeta da época . Como era inevitável, foi muito influenciado pela obra dos castelhanos Góngora e Quevedo, e traduziu obras dos dois mestres, assim como, fiel ao cânon retórico, imitou e recriou composições deles . Por isso durante muito tempo, e até poucos anos atrás, foi chamado de plagiário por quem não levava em conta o fato disto ser prática plenamente lícita e comum naquela época, e aliás indispensável para o poeta culto .

LEITURAS AFINS:

Obras de Gregório de Mattos.dir. de Afrânio Peixoto. 6 vols.Rio: Publicações da Academia Brasileira 1923-1933 (Sacra, I, 1929; Lírica, II, 1923; Graciosa, III, 1930; Satírica, IV e V; Ultima, 1933).

Poemas Escolhidos. Seleção, introdução e notas de José Miguel Wisnik.Sao Paulo: Cultrix,1976.

Obra Poética. Ed. James Amado, Notas de E. Araújo.2 vols. Rio: Record, 1990, 2ª edição.

Gregório de Mattos. Seleção de textos, notas, estudo biográfico, histórico e crítico por Antonio Dimas, São Paulo: Nova Cultural (Literatura Comentada), 1988.

Gregório de Mattos. Senhora Dona Bahia: Poesia Satírica. (seleção, introdução, estudo crítico, notas de Cleise Furtado Mendes, Salvador : EDUFBA, 1996.

sábado, 2 de agosto de 2008

CINEMA A LA CARTE: O PODEROSO CHEFÃO PARTE II


Início do século XX. Após a máfia local matar sua família, o jovem Vito (Robert De Niro) foge da sua cidade na Sicília e vai para a América. Já adulto em Little Italy, Vito luta para ganhar a vida (legal ou ilegalmente) e manter sua esposa e filhos. Ele luta contra Black Hand Fanucci (Gastone Moschin), que exigia dos comerciantes uma parte dos seus ganhos. O poderio de Vito cresce muito, mas sua família (passado e presente) é o que mais importa para ele. Um legado de família que vai até os enormes negócios que nos anos 50' são controlados pelo caçula, Michael Corleone (Al Pacino). Agora baseado em Lago Tahoe, Michael planeja fazer por qualquer meio necessário incursões em Las Vegas e Havana instalando negócios ligados ao lazer, mas descobre que alguns de seus aliados estão tentando matá-lo. Crescentemente paranóico, Michael também descobre que sua ambição acabou com seu casamento com Kay (Diane Keaton) e aos poucos, está destruindo toda a família. Enquanto tenta se inocentar de uma acusação federal, Michael concentra sua atenção para lidar com os inimigos.
Mesmo não sendo uma obra tão inesquecível e cativante quanto a primeira, esta segunda parte da trilogia – “O Poderoso Chefão” possui uma história infinitamente mais complexa, madura e bem desenvolvida que a do primeiro filme. Em primeiro plano temos a continuação da saga de “Michael Corleone” que, após escapar ileso de um atentado planejado contra ele por um de seus inimigos, decide investigar quem seria o suposto mandante do homicídio. Apesar de não conter seqüências de ação, a estória “prende” o espectador pela maneira como vai sendo desenvolvida com o desenrolar do filme e pelo clima de mistério que esta confere ao mesmo (durante várias vezes flagrei-me perguntando: “Quem almeja matar quem e por qual motivo?”). Outro ponto forte desta estória é o fato dela retratar (ainda que seja apenas de soslaio) a Revolução Cubana que colocou Fidel Castro no poder. Em segundo plano temos a saga de “Vito Andolini” que, após ter os pais e o único irmão assassinados, foge de sua terra natal (“Corleone”) e ruma para “Nova York”, onde tem o nome alterado para “Vito Corleone”. Passam-se vários anos e “Vito” entra em conflito com “Don Fanucci” (um mafioso cruel que extorquia dinheiro dos comerciantes italianos residentes em Nova York”). O rapaz decide então eliminar o seu desafeto e, após isso, se reúne a alguns amigos dando inicio à sua vida no submundo do crime. A estória de “Vito” pode não ser tão complexa quanto a de “Michael”, mas ainda assim ela é bem desenvolvida, conferindo um forte clima italiano e uma dose extra de beleza e magia ao filme (assim como acontece com o seu antecessor). Outro grande destaque do longa é a montagem deste que alterna magistralmente entre a história do “passado” e a do “presente” fazendo com que ambas não fiquem cansativas e/ou confusas em momento algum. As atuações estão todas ótimas (“Al Pacino” está extremamente inexpressivo, mas devemos levar em conta que o seu personagem é um homem sério e sisudo e isso faz com que o ator necessite realizar uma atuação inexpressiva, apesar de ele mudar o tom de voz perfeitamente sempre que necessário).Em suma, uma obra clássica, inesquecível.

Sinopse: Durante os anos 50, Michael Corleone (Al Pacino) está agora a frente da família e tenta expandir seus negócios por Las Vegas, Hollywood e Cuba. Paralelamente, conhecemos a interessante história de Vito Corleone (Robert De Niro), ainda jovem na Sicília, em 1910, e como ele chegou a Nova York e começou a contruir o seu império. Vencedor de 6 Oscar: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator Coadjuvante (De Niro), Melhor Canção, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Direção de Arte.


Título Original: The Godfather - Part II

Gênero: Policial

Origem/Ano: EUA/1974

Duração: 177 min

Direção: Francis Ford Coppola

Elenco:

Al Pacino .... Don Michael Corleone
Robert DeNiro ....
Jovem Vito Corleone
Diane Keaton ....
Kay Adams
Robert Duvall .... Tom Hagen
John Cazale .... Fredo Corleone
Talia Shire .... Connie Corleone Rizzi
Lee Strasberg .... Hyman Roth
Michael V. Gazzo .... Frankie Pentangeli
G.D. Spradlin .... Senador Pat Geary
Richard Bright ....
Al Neri
Gastone Moschin .... Fanucci
Tom Rosqui .... Rocco Lampone
Bruno Kirby .... Jovem Clemenza
Frank Sivero .... Genco
Francesca De Sapio .... Jovem Carmella "Mama" Corleone
Morgana King ....
Mama Corleone
Marianna Hill .... Deanna Corleone
Dominic Chianese .... Johnny Ola
John Aprea ....
Jovem Tessio
Abe Vigoda .... Tessio
Gianni Russo .... Carlo
Giuseppe Silato ....
Don Francesco
Mario Cotone .... Don Tommasino
Harry Dean Stanton .... Policial do FBI
Danny Aiello .... Tony Rosato
James Caan .... Sonny Corleone
Roman Coppola .... Jovem Sonny Corleone
Sofia Coppola ....
Criança no barco na cena na Estátua da Liberdade


UM ASTRO NA CASA BRANCA


Por Fernando Serpone, de Washington (Folha de São Paulo)


A batalha pela Casa Branca entrou em sua fase mais negativa, que hoje se tornou acentuada com um novo anúncio em que os republicanos comparam Barack Obama a Deus e com o lançamento de um site em que ridicularizam o status de "celebridade" do senador democrata.

O ataque marca a fase mais negativa da campanha até o momento e chega após a acalorada troca de ofensas ontem entre os dois aspirantes à Presidência em que o republicano John McCain acusou Obama de explorar o fator racial.

A ofensiva republicana foi hoje um passo além, ao comparar diretamente Obama com Deus.

"Em 2008 o mundo será benzido", dispara um anúncio de um minuto intitulado "O eleito".

"Pode ver a luz?", se pergunta o narrador, que conclui questionando se Obama "está pronto para assumir a liderança?".

A esse anúncio da campanha republicanos se soma uma página interativa que oferece aos internautas a possibilidade de participar de um jogo em que devem adivinhar quem é o famoso --Obama é um deles-- através das diferentes declarações.

A primeira adivinhação questiona quem "foi à Whole Foods (uma rede cara de produtos ecológicos) ultimamente e perguntou quanto cobram pela rúcula?".

As opções eram Cameron Diaz, Barack Obama, Jessica Biel e Matt Damon e a resposta correta era o senador democrata, que é mostrado pelos republicanos com óculos de sol e um grande sorriso.

A série de perguntas, na qual todos os representantes da brincadeira fazem comentários mais sérios que os de Obama, termina com o vídeo "Celeb", lançado na quarta-feira, e no qual o presidenciável democrata é comparado com Britney Spears e Paris Hilton.

Essa não é a primeira vez que usam vídeos de humor e a participação popular para deturpar a imagem de Obama.

Há poucas semanas, o mesmo site disponibilizava duas opções de vídeos com trilha sonora romântica para representar o amor da mídia em relação a Obama e quem acessasse decidiria qual seria a canção oficial.

"Os republicanos estão construindo uma imagem negativa de Obama como fizeram com (o candidato democrata à Casa Branca) John Kerry em 2004, que foi apresentado como um elitista distante do americano médio", disse à agência Efe Thomas Schwartz, professor da Universidade Vanderbilt, de Tennessee.

A pergunta sobre a rúcula e a rede de produtos ecológicos, que certamente não figura entre as opções mais populares dentre as lojas de fast-food, tentaria projetar essa imagem elitista.

Já Obama se limitou a encaixar os golpes baixos e se defender energicamente embora sem seguir, por enquanto, os passos da campanha de seu rival republicano, John McCain.

O senador democrata diz não querer recorrer aos velhos truques políticos e sustenta que a sua campanha será positiva e articulada em torno de sua principal mensagem de mudança e esperança.

Os especialistas advertem que as campanhas negativas funcionam e apontam que Obama poderia se ver forçado a revisar sua estratégia, mas alertam também do arriscado rumo pelo qual McCain optou.

Bruce Gronbeck, professor da Universidade de Iowa, diz que desde as presidenciais de 1988, nas quais George Bush, pai do atual presidente americano, concorreu e ganhou de Michael Dukakis, os republicanos utilizam os anúncios negativos de forma recorrente.



Leituras afins: Ernest Griffith. O sistema americano de governo. Editora Nordica. 1993. Preço: 10, 00.

TEMPO PRESENTE



(Por Miriam Leitão, de O Globo)


A ata do Copom tem uma coleção de boas notícias. O investimento cresceu 15% no primeiro semestre; a produção industrial aumentou 6% até maio — a de máquinas, 16%, e a de carros e eletrônicos, quase 14%. No primeiro semestre, foram criados 1,3 milhão de empregos formais; só a agricultura, e apenas em junho, contratou 92 mil. O comércio vendeu 14% mais. A má notícia: os juros continuarão subindo.

A ata empilha também os números ruins de inflação: IPCA em 12 meses a 6,06%, acima do centro da meta; apesar da queda da taxa de câmbio, os bens chamados de comercializáveis — na falta de um nome melhor para produtos afetados diretamente pelo câmbio — subiram 7,78% em 12 meses; no mesmo período, o Índice de Preços do Atacado subiu 17,9%. O IPA agrícola foi de 37,91%; nos 12 meses anteriores, terminados em junho de 2007, havia sido de 8,07%. Em todas as medidas, todos os núcleos, todas as formas de comparação, a inflação está subindo, afastando-se da meta, e mostrando pressões ainda por chegar ao varejo.

Essa má notícia é que faz com que todas as outras sejam vistas meio de lado pelo órgão que tem a ingrata tarefa de manter o olhar fixo na meta de inflação. Na última reunião do Copom, os juros, que vinham subindo a 0,5% a cada 45 dias, foram elevados em 0,75%. Os juros bancários já subiram para aqueles níveis que são impensáveis em outros países do mundo. Juros médios do crédito ao consumidor estão agora na ordem de 50% ao ano. Os para empresas chegam a 26%. Em que país do mundo, consumidor compra com o dinheiro a esse preço, e empresa gira seus negócios a esse custo? O Brasil é mesmo um país diferente.

Tão diferente que aquilo que assusta o mundo inteiro não faz uma ruga de preocupação na testa do Banco Central. Segundo a ata do Copom, foi mantido em zero o percentual previsto de reajuste da gasolina este ano. Em outros países, os consumidores vivem apavorados com o preço na bomba, que subiu fortemente, mas aqui tanto faz o petróleo estar a US$ 35, a US$ 146 ou a US$ 124, como fechou ontem, que o preço na bomba não muda.

Mesmo sem essa pressão, a inflação brasileira tem sido uma fonte de dor de cabeça. Pela sua já conhecida linguagem cifrada, o BC avisou que os juros continuarão subindo. “O Copom considera que a persistência do descompasso importante entre o ritmo de expansão da demanda e da oferta agregadas vem exacerbando o risco para a dinâmica inflacionária.” Ou seja, o Banco Central acha que as coisas não vão nada bem, e que o ritmo de crescimento do consumo precisa ser detido para que a inflação volte ao centro da meta no ano que vem. Este ano é impossível. O BC já trabalha com o olho em 2009, pois os juros demoram um pouco a produzir seu efeito na economia.

No governo cujo programa principal chama-se Aceleração do Crescimento, o Banco Central tem a ingrata e antipática tarefa de desacelerar o crescimento. Entrevistei ontem o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, cujo trabalho é justamente o de tentar acelerar esse ritmo, no comando do banco que financia a economia brasileira a juros baixos. Ele admite que o crescimento pode estar acima do potencial, pressionando a inflação:

— É uma questão de calibragem. A economia acelerou bastante no fim do ano passado, com o consumo das famílias crescendo perto de 9%, um aumento muito forte das importações que ainda persiste. São sintomas de um crescimento um pouco acima do potencial. A inflação, no início do ano, veio muito forte e está produzindo efeito muito preocupante sobre todos os índices de atacado. Isso recomenda uma moderação no ritmo de crescimento.

No entanto, o presidente do BNDES acha que o ajuste deveria poupar os investimentos, porque são eles que garantirão a oferta futura.

— Em moderando o ritmo de crescimento, devemos nos preocupar com a sustentação dos investimentos. Eu defendo que é mais racional que a moderação do crescimento seja feita de maneira mais intensa sobre o consumo do governo e o consumo privado e menos sobre os investimentos. A razão é simples: os investimentos produzem oferta futura, eles são portadores de processos de desenvolvimento. Seria pouco inteligente sacrificar principalmente os investimentos.

Na visão dele, porém, o governo tem apenas que manter o atual ritmo de crescimento das despesas. Ritmo que, pelos dados divulgados esta semana, teve pequena desaceleração. Outros economistas acham que o governo teria de cortar gastos mais fortemente se quiser evitar que, para combater a inflação, seja necessário reduzir drasticamente o consumo privado.

O consumo tem crescido tanto em bens que refletem aumento da renda quanto em bens de maior valor, que refletem a expansão do crédito, de acordo com a ata do Copom. O risco da elevação rápida da taxa de juros é sobrecarregar a família brasileira, atualmente já muito mais endividada que anos atrás. O impacto do aperto monetário será maior no orçamento doméstico.

Por ora, o país vive uma situação estranha: colhendo números excelentes de crescimento de vendas, produção, emprego, investimento, renda e crédito; o BC, no meio de um processo de aperto de juros que vai ainda mais longe, enquanto o mundo caminha para uma forte desaceleração, com a principal economia do planeta estagnada. Tempos desafiadores.


LEITURAS AFINS:

João Paulo dos Reis Velloso. Inflação, moeda e desindexação. Editora Nobel, 2007. Preço: R$ 37, 40.