sexta-feira, 8 de maio de 2009

"EU MESMO MENTINDO, DEVO ARGUMENTAR, QUE ISTO É BOSSA NOVA, ISTO É MUITO NATURAL"


Eis uma obra universal. Sua beleza e inigualável escrita foram a mim apresentadas por ocasião de um breve curso de música popular brasileira, em meados de 2005. Sua primeira edição, de 1991, publicada pela Companhia das Letras, eternizava no ocre da capa a imagem consagrada de duas das maiores mentes do último meio século (Jobim e Gilberto), em contraste com o primeiro compacto do movimento (termo que carrega no ventre múltiplos significados) de maior relevância na música popular do Brasil: "Chega de Saudade".
De título homônimo, o livro de Ruy Castro poderia ser elogiado por sua fluidez de linguagem, com doses cavalares de informação sobre a cultura brasileira nas décadas de 30 a 60, ou pelo panorama completo da formação, consolidação e consagração da Bossa Nova como movimento musical e espírito de uma época. Vai além: é o resultado de uma pesquisa árdua, sangrenta, tipicamente castreana (vide as biografias de Carmen Miranda e Nelson Rodrigues, ou o inimitável “Saudades do Século XX”), que envolveu entrevistas como compositores, músicos, cantores, amigos e demais prosélitos da Bossa Nova.
A leitura concilia paixões, traições, amores e desamores, comicidade e tragédia. Uma surpresa a cada revelação de Jobim, Alf, Vinicius, João, Ronaldo, Nara e outros tantos, tão intimamente onipresentes nas nossas alegorias nostálgicas. Obviamente, o menino de Juazeiro que eternizou Ipanema é tratado pelo autor como um capítulo aparte, quase confundível com a própria geração que o cerca. Todos os caminhos levam a João Gilberto:

“Sua mãe devia ter razão em acha-lo, porque ele vivia esquecendo livros,cadernos e canetas pela rua. Certo dia, Joãozinho saiu com um par de sapatos novos e d. Patu recomendou-lhe, meio sério, meio de brincadeira , que não fosse perdê-los. Os moleques estavam jogando uma pelada no campinho e o convidaram para participar.
Joãozinho tirou os sapatos para jogar , mas lembrando-se do que sua mãe lhe dissera, enterrou-os na areia, para não perdê-los. Ao fim da pelada , foi procurá-los e não se lembrou onde os havia enterrado.Voltou descalço para casa e levou uns daqueles pitos inesqueciveis.
Aos onze anos, em 1942, seu pai mandou-o para um colegio interno,o PADRE ANTONIO VIEIRA, em Aracaju. Não se pode dizer que Joãozinho fosse um aluno brilhante: latim e geometria,decididamente, não era com ele. Estava muito mais interresado em torcer por um time de futebol local, o SILVESTRE, e em formar conjutos locais como colegas. Aos 14 anos, numa das férias em Juazeiro, um padrinho boêmio deu-lhe um violão. Era o que ele precisava.”

Chega de Saudade é um relicário de emoções ininterruptas. A leitura de cada parágrafo alimenta o desejo pelo próximo. Contudo, é necessária uma advertência: se você não gosta de ouvir ou ler sobre Bossa Nova, leia Paulo Coelho, Zibia Gasparetto ou ouça Chiclete com Banana !?!? Chega de Saudade é para os iniciados, os saudosistas, aqueles que nasceram (e sabem disso) com alguns anos de atraso, e para quem gosta de contemplar o silêncio, de preferência, com o “pac-tupac, tupac" e o "din, don” das batidas do violão.

sábado, 2 de maio de 2009

PARIS, PARIS...



Aproveitando o escasso tempo das minhas férias (sempre anuais, ressalte-se o infortúnio!...), pude me deliciar com essa raridade, digna de um honroso comentário neste blog.

“Chansons d’amour” (Monsieur Gilbert avec Marie Louise d’Avignon et l’Ensemble de Paris) é uma obra-prima da Som Livre: vinte e cinco sucessos da música romântica francesa condensados no nostálgico romantismo do vinil. Mais seletivo que o tradicional “Des Chansons D´amour”, o disco traz pérolas como "Padam, Padam"; "Parlez-moi d’amour"; "Pigalle" e as consagradas "La vie em rose" e 'Ne me quitte pas", dentre outras.
Gilbert Becaud se envolve de corpo e alma nos mistérios da música. Abraçado pelo Brasil nos idos de 1964, percorreu o país com o show “Uma noite em Paris”, uma retrospectiva dos inesquecíveis momentos da música francesa; sempre acompanhado de seu indefectível quinteto, ao som do accordéon-mussete, tipicamente parisiense.
Seja em festivais como em Viña del Mar e Parque del Plata, ou em trilhas sonoras, como no clássico erótico “Emmanuelle”, Monsieur Gilbert desfila seu vasto talento musical encantando os amantes das chansons parisienses.
Homenagem ao bicentenário da Revolução Francesa, o álbum é simplemente imperdível.

DEU NO NY TIMES!


Ao leitor de primeira viagem, devo contar a história de como esse livro chegou às minhas mãos: por motivos extemporâneos, pedi a minha irmã que comprasse um livro qualquer nas suas idas e vindas a certo shopping da cidade. Seu profundo, porém, desculpável desconhecimento acerca de minhas leituras, aliado à dificuldade de se saber por telefone qual livro adquirir dentre tantos, levou-me a conhecer um relato curioso de um viajante a serviço da informação.
Nativo de Oak Park, Illinois, Larry Rother fora correpondente do The Times para o Caribe e a América Latina quando aportou na 620 Eighth Avenue. Como correspondente do NY Times no Brasil, Rother acumula a experiência jornalística necessária para prover suas análises de conteúdo não meramente brazilianista. Contudo, nossos costumes políticos sempre levam um yankee em terra brasilis a se deparar com controvérsias das mais tenebrosas. Foi o que aconteceu em 2004, quando L. R quase foi expulso do Brasil por ousar discutir as peculiaridades do gosto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva por bebidas alcoólicas.
“Deu no New York Times” é fruto das experiências vividas por Rohter, durante esses anos todos, nos vários Brasis que o Brasil abriga. O livro reúne textos inéditos nos quais ele analisa o país sob uma ótica singular - a de um jornalista experiente, profundo conhecedor da nossa nação, escrevendo para o diário mais importante do mundo -, tratando de política, cultura, meio ambiente e raça, entre outros temas. Confira um trecho:

“'Fiquei puto porque, como pode um cidadão que nunca conversou comigo, que nunca tomou um copo de cerveja comigo, que nunca tomou um copo d’água comigo, fazer uma matéria de que eu bebia? Isso me deixou muito puto.” Assim falou Luiz Inácio Lula da Silva numa entrevista ao jornal Folha de S.Paulo em 2007, referindo-se à reportagem mais polêmica que eu escrevi em todos os meus anos como correspondente no Brasil.
O desabafo do presidente parece ser sincero, e contém várias frases de efeito. Só que, como muito do que Lula disse sobre tantas coisas ao longo dos anos, ele simplesmente não é correto.
O meu relacionamento com Lula, embora esporádico, data dos anos 70, quando ele estava surgindo como líder sindical e eu, um correspondente recém-chegado ao Brasil, o acompanhei e o observei. Já conversei bastante com ele, ouvindo declarações astutas e também bobagens, todas devidamente anotadas no meu bloquinho. Já tomei água, refrigerante e até uma cachacinha com ele. Então, fico perplexo quando ouço o presidente alegar que nunca teve nenhum contato comigo. A verdade é comprovadamente outra (...)"

Leitura agradável, fluente, ideal para a tranqüilidade dos finais de semana. O livro é polêmico: Rother ataca frontalmente a “inteligência” tupiniquim; aborda temas insossos como o trabalho escravo, as relações com a China, a formação do Partido dos Trabalhadores. Sobretudo, o autor busca contemplar em visão panorâmica os principais fatos históricos do país nos últimos trinta anos, à luz de um exame pouco convencional dos aspectos culturais do “povo brasileiro”.

Esse eu leio, e assino em baixo!

sexta-feira, 1 de maio de 2009

ENTREVISTA COM O AUTOR


L&PM – Seu romance Honra ou Vendetta, publicado em 2001, trata de um assunto que segue extremante atual. Uma história do mesmo universo de Gomorra, um dos grandes best-sellers internacionais do momento. Como surgiu o seu interesse pelo assunto?


Sílvio Lancellotti – Sinceramente, eu não curti Gomorra, nem o livro e nem o filme. Mas, tudo bem, ambos valem pela sua ousadia. Descendo de sulistas, na Itália, de sicilianos e de calabreses, ouvi inúmeras histórias na infância e na adolescência. Tive um tio-avô, Edoardo como o meu pai e o meu primogênito, assassinado, misteriosamente, em São Paulo. A curiosidade fermentou, naturalmente. Desandei a guardar material, artigos, recortes, livros, fitas-cassetes, bem antes dos DVS. Então, nos meados da década de 80, me interessei pela história do “capo” John Gotti. E passei a coletar, de maneira mais organizada, quase profissional, o que podia a respeito da “Cosa Nostra”. Graças a um amigo-irmão, Leonardo Regazzoni, que a Máfia mataria em Palermo, num assalto imbecil, à saída de um hotel, em 86, eu aprimorei os meus contatos e os meus conhecimentos. Foi ele, o Lindy, apelido do Leonardo, quem, em 84, me apresentou ao “super-capo” Giuseppe Bonanno. Outra bola de neve...


L&PM – Vê-se claramente no seu livro, que o ficcionista e o jornalista se confundem, às vezes, no que diz respeito ao enorme volume de informações sobre a Máfia e o crime organizado pelo mundo, já que o livro tem “locações” na Itália, Nova York e Brasil. Como o sr. chegou às informações e minúcias que o livro expõe, tanto nas relações entre os personagens mafiosos como na hierarquia e “estatutos” do crime organizado. Como foi o processo de criação desta história?


Sílvio Lancellotti – Como eu já disse, antes mesmo de pensar em Honra ou Vendetta eu já possuía um arquivo fenomenal sobre a “Cosa Nostra”. Originalmente, a minha idéia era fazer uma série de reportagens na Folha. Mas, na medida em que principiei a ampliar o meu material, me bateu a idéia de misturar a realidade e a ficção. Na infância, quando me perguntavam o que eu gostaria de ser, quando crescesse, eu respondia, na lata: “Claro, escritor!”. Já havia lançado livros de gastronomia e de esporte. Mas, a mistura de realidade e de ficção me empolgou, É, a bola de neve...


L&PM – Como surgiu a idéia de adaptar Honra ou Vendetta para a televisão?


Sílvio Lancellotti – Fiquei amigo do Lauro César Muniz, a quem já conhecia, eu como jornalista e ele como dramaturgo, ao prestar consultoria a uma saudosa pizzaria de São Paulo, de nome Paisà. Isso, no começo da década de 90. E mostrei ao Lauro pedaços do que seria, bem depois, Honra ou Vendetta. O Lauro gostou, me estimulou. Toquei o livro adiante, fiz uma infinidade de viagens, para entrevistas e para pesquisas, aos EUA e à Itália. Comprei uma tonelada de publicações, de livros, vi uma multidão de filmes. Então, em 2001, já na festa de lançamento de Honra ou Vendetta, o Lauro me disse que o livro daria uma minissérie. Na época, o Lauro ainda estava na Globo. Tentou e retentou, até com o apoio do Daniel Filho e do Roberto Farias. Mas, a Globo preferiu apostar em O Quinto dos Infernos. Num instante em que eu não acreditava mais na possibilidade de uma adaptação, já na Record, de novo a tal bola de neve, o Lauro me reprocurou – e vem aí "Poder Paralelo".


L&PM – O sr. está em fase de conclusão do romance Vendetta, só!. Poderia nos adiantar alguma coisa sobre o enredo?


Sílvio Lancellotti – Já terminei o Vendetta, só!. Não sei se é um título perfeito – mas, eu gosto. A idéia da continuação da saga do personagem principal de Honra ou Vendetta, o Tony Castellamare, nasceu da pressão de quem leu e me pediu a seqüência. Em Honra ou Vendetta o Tony elimina todos os seus inimigos, menos um terrorista jordaniano, que escapole das suas garras, após desperdiçar uma grana formidável em um seqüestro fracassado. Em Vendetta, só!, eu simplesmente faço com que o tempo passe, se adiante dez anos, revivo o terrorista e a sua ânsia por se vingar da frustração anterior. E não deixo de combinar a verdade e a ficção. Até mesmo eu introduzo algumas novidades em relação ao crime organizado, como os golpes via Internet pelos estelionatários da Nigéria e como a questão das Tríades da China. E valorizo novos protagonistas, como os filhos de Tony, não nascidos em Honra ou Vendetta. Até o Mossad, o serviço secreto de Israel entra na história...

HONRA OU VENDETTA - SÍLVIO LANCELLOTTI


Finalmente consegui comprar o livro Honra ou Vendetta. Um dos grandes lançamentos dos últimos anos no Brasil, o livro é escrito num ritmo alucinante. É um destes raros livros que, pela arte do grande escritor, prendem o leitor da primeira à última frase.
Seja em Palermo, Nova York, Rio ou São Paulo. Por essas quatro cidades trafegam Tony Castellamare e os seus homens, todos eles integrantes de um dos braços da Máfia, aquele auto-intitulado Velha Tradição – que batalha brutalmente contra a Nova e os seus traficantes de drogas. "Nova Tradição? De onde provém a expressão? E quem é Tony Castellamare? Apenas um milionário playboy nascido no Brasil e instalado na Sicília? Um mero aventureiro? Ou um mafioso de fato?"
O livro de Sílvio Lancellotti, mescla de fatos reais com ficção, principia no dia em que um atentado mata a mulher e os três filhos de Tony numa rua de Palermo. Impacto. Na sanguinária Guerra dos Tóxicos que assola a Itália, os Estados Unidos e o Brasil, um inédito assassinato de civis – ou seja, não-combatentes, inclusive crianças. Destruída a parte mais inocente e mais querida da Família, Tony meticulosamente planeja a sua vingança. Com o auxílio crucial de personagens misteriosos da Sicília, os seus protetores.
Lancellotti, descendente de italianos (sebenne che siciliano di corpo e anima) é jornalista, escritor, romancista e chef de cuisine. Trabalhou em algumas das maiores redações jornalísticas do país, como as das revistas Playboy, Vogue e Veja. Exímio conhecedor das cosi d'Italia, nos presenteia todas as manhas de sábado e domingo com seus comentários sobre o calcio. É autor das seguintes obras: 100 receitas de carnes, 100 receitas de patisseria e 160 receitas de molhos.
Honra ou vendetta traz na verdade três livros em um. O romance-verdade, de fato, uma cronologia de fatos importantes do século XX, relacionados com a história da máfia ítalo-americana, além de mini-biografias de personagens ilustres como os capo Callogero Vizzini e Giuseppe Bonanno.
Leitura de ótimo gosto.