quarta-feira, 30 de julho de 2008

LIVRO DO DIA: O PODER SIMBÓLICO


A força simbólica de Pierre Bourdieu, de início no meio acadêmico, tem como base sua produção teórica. Nessa, destacamos no campo das ciências sociais, a importância dada às estruturas simbólicas na leitura do mundo, e a abrangência em usar sua teoria em fronts de: educação, cultura, arte, literatura, etc. O campo de produção simbólico suscita a relação de força entre os agentes, que leva à relação de sentido. Nesta perspectiva a violência simbólica apresenta tema central nos estudos de Bourdieu. Tal violência não é fruto da instrumentalização pura e simples de uma classe sobre a outra, mas é exercida através dos jogos engendrados pelos atores sociais, numa abordagem denominada por ele como "construtivismo estruturalista", enfatizavando que a sociedade é uma produção humana, uma realidade objetiva. O homem é uma produção social. Bourdieu analisa o mundo social através de um processo de causalidade circular que articula níveis diferentes da realidade separados pela micro e macro sociologia. Duas noções bem formuladas pelo autor, quando se refere às instâncias que sustentam o mundo social: campos sociais e habitus. A relação entre estas instâncias faz com que as estruturas se tornem corpo, e igualmente, que o corpo se faça estrutura. Nessa perspectiva, e armado com outros conceitos, como legitimidade, estratégia, classe social, interesse, capital simbólico, Bourdieu avança em vários domínios da sociedade, campos sociais, e faz seu combate sociológico. Entre os campos sociais analisados destacamos dois, o campo da produção intelectual (homo academicus) e da produção jornalística. Bourdieu investe no sujeito da ciência como parte do objeto da ciência, afastando a ilusão de " intelectuais sem laços nem raízes". Sua análise infiltra-se na dinâmica acadêmica e busca caracterizá-la pelos interesses específicos (postos acadêmicos, contratos de edição, reconhecimentos e gratidões), na maioria das vezes imperceptíveis aos olhos daqueles que não fazem parte deste universo. Bourdieu observa neste campo, que os intelectuais são, enquanto detentores do capital cultural, uma fração (dominada) da classe dominante, e muitas de suas tomadas de posição, em matéria de política, devem à ambigüidade de sua posição de dominados entre dominantes. Tal afirmação pode encontrar ricos estudos de caso, no Brasil, na França, na Rússia ou na China. Esta ambígua relação de poder faz com que muitos intelectuais se apropriem da competência que extrapola seus limites de competência, fazendo apelo aos títulos escolares, num resgate similar aos títulos de nobreza de outrora, transformando-os, em passaporte para se tornarem a "Nobreza do Estado" contemporâneo. Apropriação esta, acompanhada por outro tipo de usurpação, o que o torna uma autoridade acerca de temas que extrapolam a competência técnica de certos intelectuais, sendo esta, própria da ambição do intelectual à moda antiga, presente no pensamento detentor de todas as respostas. Assim, Bourdieu vai tecendo o jogo realizado pelo homo academicus e evidenciando o vai-e-vem de estrutura-corpo, possuído-possuidor, história-presente, relação de força-relação de sentido. Sua crítica se torna mais obstinada, quando visualiza certos intelectuais seduzidos em produções supostamente científicas, por temas da moda, dando a impressão de dominar sua época, por vezes, são dominados por ela. Adaptando de forma patética, suas dissertações aos temas do momento. Outro campo social trabalhado por Bourdieu nos últimos anos foi o campo de produção jornalística, nesse, a contribuição maior de Bourdieu será a importância adquirida no espaço público, discussão sobre meios de comunicação em geral, da televisãoe da produção jornalística em particular. Fazendo ressalva na introdução do livro "Sobre a televisão": O autor diz que a abordagem ali realizada é marcada por "simplificações e aproximações". Com carência para produzir novos conceitos neste campo específico, Bourdieu soube aproveitar seu espaço acadêmico e midiático para lançar a discussão em torno da produção jornalística, demonstrando como um instrumento de democracia se converte num instrumento de opressão simbólica. Alerta sobre o papel dos meios de comunicação em geral e da atividade jornalística em particular visando o bom funcionamento das esferas culturais, da democracia e da política. Dirigindo-se aos responsáveis dos grandes grupos midiáticos, ele afirma: "Este poder simbólico que, nas mais diferentes sociedades era distinto do poder político ou econômico, está hoje reunido nas mãos das mesmas pessoas, que detêm o controle dos grandes grupos de comunicação, isto é, do conjunto dos instrumentos de produção e difusão dos bens culturais". No tocante à produção jornalística, Bourdieu busca caracterizar as propriedades do campo jornalístico, fato, oferta, tempo de produção, relação entre profissionais, e efeitos, chegando à questão da ética jornalística. A indagação acerca da ética busca ultrapassar os velhos preceitos rígidos, para propor a construção de ambientes propícios para a efetivação de ações consideradas éticas. Caracterizando a falta de autonomia como uma das principais propriedades do campo de produção jornalístico (fruto da interferência das fontes, dos anunciantes e da política), Bourdieu propõe criar um curto-circuito através da "lei do meio", a crítica mútua que se pratica nos vários campos de produção cultural e sobre a qual repousam os diferentes progressos da ciência, da literatura, da arte. Nesse trabalho, Bourdieu objetiva em suas análises, que o coletivo dos jornalistas construa instâncias eficazes de julgamento crítico capazes de se opor às imposições das pesquisas de audiência, criando assim, uma legitimidade específica, capaz de fazer progredir no meio jornalístico, uma verdadeira deontologia prática.

Sinopse: Coletânea de trabalhos recentes do escritor francês, "O poder simbólico" procura dar uma resposta às mudanças que têm ocorrido nas últimas décadas na área das ciências sociais e humanas.


Ficha Técnica:
Editora: Bertrand Brasil

Ano: 2000

Edição: 3ª

Número de páginas: 311

Acabamento: Brochura
Preço: R$ 39,20

terça-feira, 29 de julho de 2008

O HOMEM-MASSA NO PODER


Por Nivaldo Cordeiro. (Publicado em http://www.nivaldocordeiro.net/, 28/07/2008)


Na noite do último sábado eu tive o privilégio de assistir ao concerto de encerramento do 39º FESTIVAL INTERNACIONAL DE INVERNO DE CAMPOS DO JORDÃO. Já bastante tradicional, o evento, que ocorreu em auditório ao lado do Palácio de Inverno do governador do Estado de São Paulo, é bancado, em grande parte, por verbas públicas. A orquestra, composta basicamente por jovens músicos bolsistas, foi regida pelo octogenário maestro Kurt Mansur e não era ele apenas que fazia o contraponto com seus jovens músicos.

Na platéia muita gente conhecida, integrante da elite econômica e política de São Paulo, gente que foi ali para ver e ser vista, como é da regra nesses eventos, e não pelo espetáculo musical em si. No programa a majestosa Nona Sinfonia, de Beethoven, considerada por muitos a composição mais bela de todos os tempos. De fato, essa música é capaz de elevar a mais endurecida alma aos cumes do prazer estético. Foi um raro privilégio estar ali.

Na platéia também estava o governador José Serra. Discreto, vestia roupas simples, sem gravada e com camisa que lembrava o indefectível jeans, o uniforme do homem-massa contemporâneo. Não pude deixar de lembrar-me do filme O SEGREDO DE BEETHOVEN, da diretora polonesa Agnieszka Holland. Nas cenas finais do filme podemos ver a estréia da peça em Viena, diante da nobreza e dos governantes principescos. Talvez o compositor nunca imaginasse que um espetáculo solene, em que sua música estivesse no programa, viesse a ter um governante assim trajado, de forma bastante inadequada para o evento e em contraste singular com muitos da platéia. Contraste ainda maior com o maestro, envergando a indumentária tradicional, e seus músicos, todos vestidos a rigor. Não preciso lembrar que, na recriação do filme, o mais elegante na platéia da estréia era o governante e não o maestro.

Mas o governador, pelo menos, entrou mudo e saiu calado, mesmo tendo recebido algumas chochas palmas. Evitou um comício desnecessário. Pior mesmo foi o secretário da Cultura, João Sayad, que representou o poder constituído na solenidade. Subiu ao palco em mangas de camisa, sem gravata e envergando uma calça de jeans desbotada, o emblema mais característico do homem-massa, usando sua indefectível barba por fazer, outro emblema dos intelectuais militantes, os sacerdotes do deus-Estado que governam em nome da massa. Que contraste! Nada poderia ser mais plástico para representar os tempos de hoje: um homem-massa governante, vestido a caráter. Um “intelectual” no poder. Sayad parecia um centauro barbudo, metade homem, metade bicho, quer dizer, homem-massa, que é a besta ela mesma.

A figura apequenada do secretário de Cultura estaria mais adequada, com o seu traje, em algum festival de música pop ou mesmo de funk. Diante daqueles músicos solenes, daquela platéia sofisticada e da música celestial de Beethoven foi um despropósito só. Quando a figura majestosa do maestro Kurt Mansur adentrou ao recinto é que o contraste ficou mais acentuado. A digníssima figura do velho artista, absolutamente de acordo com o momento, a música a ser regida, o recinto, a platéia e tudo mais, ofuscou os representantes dos homens-massa tornados governantes, ali presentes.

Quando a massa se eleva a primeira coisa que a distingue é a deselegância, a incapacidade de ter bons modos ao vestir-se e ao falar. O idioma ficará irremediavelmente corrompido, assim como os modos. A decadência pode ser percebida até mesmo nas salas de concerto, um dos recintos mais tradicionais, como bem pude testemunhar.

Meu caro leitor, nem tudo está perdido, todavia. Pior mesmo se, ao invés dos governantes, fossem os jovens músicos a vestir jeans. Aí tudo estaria irremediavelmente desesperançado. O poder pode ocasionalmente perder a majestade, não a música de Beethoven e as orquestras que o honram. Entendo que é mais fácil mudar os governantes do que os usos dos artistas eruditos, pois estes têm pudor estético. Menos mal.



LEITURAS AFINS:

Jose Ortega y Gasset. A Rebelião das Massas. São Paulo. Martins Fontes, 2002. 300 páginas. Preço: R$ 44,70.

Gabriel Tarde. A Opinião e as Massas. São Paulo. Martins Fontes, 2001. 149 páginas. Preço: 35,80.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

NA MEMÓRIA: PROCLAMAÇÃO DE CONSTANTINO, O GRANDE.


Em 25 de julho do ano 306, Constantino I era proclamado Imperador Romano pelas suas tropas.
Flavius Valerius Constantinus, conhecido como Constantino I, Constantino Magno ou Constantino, o Grande foi proclamado Augusto pelas suas tropas em 25 de Julho de 306 e governou uma porção crescente do Império Romano até à sua morte.
Nascido em Naissus, na Alta Dácia (actual Roménia), filho de Constâncio I Cloro e da filha de um dono de uma albergaria, Helena de Constantinopla, Constantino teve uma boa educação e serviu no tribunal de Diocleciano depois do seu pai ter sido nomeado um dos dois Césares, na altura um imperador júnior, na Tetrarquia em 293.
Depois da morte de seu pai em 306, nos dezoito anos seguintes combateu uma série de batalhas e guerras que o fizeram o governador supremo do Império Romano. Constantino foi o primeiro imperador romano a confirmar o Cristianismo, na sequência da sua vitória da Batalha da Ponte Mílvio. A sua adopção do cristianismo pode também ser resultado de influência familiar.
Constantino legalizou e apoiou a cristandade por volta do tempo em que se tornou imperador, com o Édito de Milão, mas também não tornou o paganismo ilegal ou fez do Cristianismo a religião de Estado.
Constantino só foi baptizado e cristianizado no final da vida.
Mas apesar de seu baptismo, há duvidas se realmente ele se tornou Cristão. Ele nunca abandonou sua adoração com relação ao deus Sol (Deus Sol Invicto), tanto que em suas moedas Constantino manteve como simbolo principal o sol.
Até o dia da sua morte, em 337, Constantino usou o título pagão de Sumo Pontífice, autoridade suprema em assuntos religiosos. O imperador Constantino influenciou em grande parte a igreja cristã.
O Édito de Constantino, promulgado em 321, determinou o domingo como dia de repouso, com excepção dos lavradores. A sua vitória em 312 sobre Maxêncio na Batalha da Ponte Mílvio resultou na sua ascensão ao título de Augusto Ocidental, ou soberano da totalidade da metade ocidental do Império.
Consolidou gradualmente a sua superioridade militar sobre os seus rivais com o esfarelamento da Tetrarquia até 324, quando derrotou o imperador oriental Licínio, tornando-se imperador único.
Constantino reconstruiu a antiga cidade grega de Bizâncio, chamando-a de Nova Roma, dotando-a de um senado e ministérios cívicos semelhantes aos da antiga Roma. Após a sua morte foi nomeada Constantinopla, tendo-se gradualmente tornado a capital do império.
Um anos depois do Concílio de Niceia (325), Constantino mandou matar seu próprio filho Crispus. Sufocaria depois sua mulher Fausta num banho sobreaquecido. Mandou também estrangular o marido de sua irmã, e chicotear até à morte o filho de sua irmã.

LEITURAS AFINS:
Edward GIbbon. Declínio e Queda do Império Romano. Companhia de Bolso. 2005. Preço: R$ 12,00
Hercílio de Lourenzi. Imperadores Romanos: seu tempo e suas glórias. Editora Escala. 1999. Preço: 20,00

U.E OFERECE AO BRASIL ACORDO SOBRE ETANOL NA OMC


A União Européia ofereceu ao Brasil a chance de exportar mais etanol para os 27 países do bloco, como parte das iniciativas para tentar destravar as negociações da Rodada de Doha de comércio global. Em troca, a UE exigiria mais acesso aos mercados brasileiros, segundo o comissário europeu de Comércio, Peter Mandelson.
"Surpreendentemente, devido à importância dessa questão em Brasília, (o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso) Amorim pareceu minimizar o valor de tal oferta para o Brasil," escreveu Mandelson em seu blog.
A UE espera que grandes economias emergentes, como o Brasil, se abram mais a produtos industriais.
Mandelson não deu detalhes sobre a oferta bilateral da UE ao Brasil, mas um diplomata disse que ela representaria a oportunidade de exportar quase 1,4 milhão de toneladas de etanol por ano para o bloco até 2020, sob uma tarifa menor do que o imposto-padrão, em torno de 40 por cento.


(Reuters)

CHÁVEZ SE REUNE COM REI ESPANHOL APÓS CRISE

O presidente venezuelano, Hugo Chávez, se reunirá na sexta-feira com o rei Juan Carlos e com o chefe do Executivo espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, em uma visita com a qual os dois países pretendem aparar arestas após meses de tensões diplomáticas.
O monarca receberá Chávez no Palácio Marivent, em Mallorca, onde passa férias. Depois, o presidente venezuelano irá à capital espanhola onde almoçará com Zapatero.
A visita marca o primeiro encontro entre Juan Carlos 1o e Chávez desde que o rei espanhol mandou o presidente venezuelano se calar durante uma cúpula ibero-americana.
Naquele encontro, ocorrido em novembro do ano passado no Chile, o rei perdeu a calma diante de Chávez quando o líder venezuelano criticou repetidamente o ex-primeiro-ministro espanhol José Maria Aznar.
Após meses de tensão, nos quais a Venezuela ameaçou nacionalizar bancos de propriedade de investidores espanhóis e vigiar outras empresas espanholas que operam no país de perto, Chávez e Zapatero se encontraram na Cúpula América Latina-União Européia em Lima, e mostraram a intenção de melhorar as relações entre os dois países.
Chávez está em uma série de viagens internacionais que já o levou à Rússia, Belarus e Portugal.

(Reuters)

quinta-feira, 24 de julho de 2008

LIVRO DO DIA - RECORDAÇÕES DO ESCRIVÃO ISAÍAS CAMINHA


O primeiro romance de Lima Barreto é uma forte crítica à sociedade hipócrita e preconceituosa e a imprensa (que ele mesmo fez parte). É um livro pungente em todos os ssentidos, de leitura obrigatória. O jovem Isaías Caminha, menino do interior, tomou gosto pelos estudos através da desigualdade de nível mental entre o seu pai, um ilustrado vigário, e sua mãe. Admirava o pai que lhe contava histórias sobre grandes homens. Esforçou-se muito nas instruções e pouco brincava. Tinha ambições e um dia finalmente decide ir para O Rio fazer-se doutor: "Ah! Seria doutor! Resgataria o pecado original do meu nascimento humilde, amaciaria o suplício premente, cruciante e omnímodo de minha cor... Nas dobras do pergaminho da carta, traria presa a consideração de toda a gente. Seguro do respeito à minha majestade de homem, andaria com ela mais firme pela vida em fora. Não titubearia, não hesitaria, livremente poderia falar, dizer bem alto os pensamentos que se estorciam no meu cérebro. [...] Quantas prerrogativas, quantos direitos especiais, quantos privilégios, esse título dava! Podia ter dois e mais empregos apesar da Constituição; teria direito à prisão especial e não precisava saber nada. Bastava o diploma. Pus-me a considerar que isso devia ser antigo... Newton, César, Platão e Miguel Ângelo deviam ter sido doutores!" Aconselha-se com o tio Valentim. Este visita o Coronel Belmiro, chefe eleitoral local, que redige uma carta recomendando Isaías para o Doutor Castro, deputado. Segue paro O Rio com algum dinheiro e esta carta. Instala-se no Hotel Jenikalé, na Praça da República e conhece o Senhor Laje da Silva - diz ser padeiro e é incrivelmente afável com todos, em especial com os jornalistas. Através dele conhece o doutor Ivã Gregoróvitch Rostóloff, jornalista de O Globo, romeno, sentia-se sem pátria e falava 10 línguas. Vai assim conhecendo O Rio de Janeiro. Decide procurar o Deputado Castro para conseguir seu emprego e poder cursar Medicina. Dirige-se a Câmera: "subi pensando no ofício de legislar que ia ver exercer pela primeira vez, em plena Câmera dos Senhores Deputados - augustos e digníssimos representantes da Nação Brasileira. Não foi sem espanto que descobri em mim um grande respeito por esse alto e venerável ofício [...] Foi com grande surpresa que não senti naquele doutor Castro, quanto certa vez estive junto dele, nada que denunciasse tão poderosa faculdade. Vi-o durante uma hora olhar tudo sem interesse e só houve um movimento vivo e próprio, profundo e diferencial, na sua pessoa, quando passou por perto uma fornida rapariga de grandes ancas, ofuscante sensualidade." Tenta falar com o doutor Castro mas não consegue. Quando finalmente consegue, visitando a sua residência particular (casa da amante) este o recebe friamente dizendo que era muito difícil arranjar empregos e mando o procurar no outro dia. Caminha depois descobre que o deputado estava de viajem para o mesmo dia e é tomado por um acesso de raiva: Patife! Patife! A minha indignação veio encontrar os palestradores no máximo de entusiasmo. O meu ódio, brotando naquele meio de satisfação, ganhou mais força [...] Gente miserável que dá sanção aos deputados, que os respeita e prestigia! Porque não lhes examinam as ações, o que fazem e para que servem? Se o fizessem... Ah! Se o fizessem! Com o dinheiro no fim, sem emprego, recebe uma intimação para ir à delegacia. O hotel havia sido roubado e prestava-se depoimentos. Ao ouvir as palavras do Capitão Viveiros: "E o caso do Jenikalé? Já apareceu o tal "mulatinho"?" Isaías reflete: Não tenho pejo em confessar hoje que quando me ouvi tratado assim, as lágrimas me vieram aos olhos. Eu saíra do colégio, vivera sempre num ambiente artificial de consideração, de respeito, de atenções comigo [...] Hoje, agora, depois não sei de quantos pontapés destes e outros mais brutais, sou outro, insensível e cínico, mais forte talvez; aos meus olhos, porém, muito diminuído de mim próprio, do meu primitivo ideal [...] Entretanto, isso tudo é uma questão de semântica: amanhã, dentro de um século, não terá mais significação injuriosa. Essa reflexão, porém, não me confortava naquele tempo, porque sentia na baixeza de tratamento, todo o desconhecimento das minhas qualidades, o julgamento anterior da minha personalidade que não queriam ouvir, sentir e examinar. Levado a presença do delegado, começa o interrogatório: "Qual é a sua profissão?" "Estudante." "Estudante?!" "Sim, senhor, estudante, repeti com firmeza." "Qual estudante, qual nada!" A sua surpresa deixara-me atônito. Que havia nisso de extraordinário, de impossível? Se havia tanta gente besta e bronca que o era, porque não o podia seu eu? Donde lhe vinha a admiração duvidosa? Quis-lhe dar uma resposta mas as interrogações a mim mesmo me enleavam. Ele por sua vez, tomou o meu embaraço como prova de que mentia." Com ar de escarninho perguntou: "Então você é estudante?". Dessa vez tinha-o compreendido, cheio de ódio, cheio de um santo ódio que nunca mais vi chegar em mim. Era mais uma variante daquelas tolas humilhações que Eu já sofrera; era o sentimento geral da minha inferioridade, decretada a priori, que Eu adivinhei na sua pergunta. O delegado continua o interrogatório até arrebatar chamando Caminha de malandro e gatuno, que, sentindo num segundo todas as injustiças que vinha sofrendo chama o delegado de imbecil. Foi para o xadrez. Passa pouco mais de 3 horas na cela e é chamado ao delegado. Este se mostra amável, tratando-o por "meu filho", dando-lhe conselhos. Caminha sai da delegacia e decide mudar-se também do hotel. Passa a procurar emprego mas na primeira negação percebe que devido a sua cor seria muito difícil se ajustar na vida. Passa dias perambulando pelas ruas do Rio, passando fome, vendendo o que tinha para comer algo, até avistar Rostóloff que o convida para dar um passada na redação de O Globo - onde passa a trabalhar como contínuo. Nesta altura a narrativa sofre um corte. A ação de Caminha é posta de lado para descrever minunciosamente os funcionamentos da imprensa carioca. Todas as características dos grandes jornalistas, desde o diretor de O Globo, Ricardo Loberant aos demais redatores e jornalistas são explicitadas de maneira cruel e mordaz. O diretor é retratado como ditador, temido por todos, com apetite de mulheres e prazer, visando somente ao aumento das vendas do seu jornal. Somos apresentados então a inúmeros jornalistas como Aires d'Avila, redator-chefe, Leporace, secretário, Adelermo Caxias, Oliveira, Menezes, Gregoróvitch. A tônica de O Globo era a crítica acerba ao governo e seus "desmandos", Loberant se considerava o moralizador da República. Isaías se admira com a falta de conhecimento e dificuldade para escrever desses homens que nas ruas eram tratados como semi-deuses e defensores do povo. Por este tempo, Caminha havia perdido suas grandes ambições e acostumava-se com o trabalho de contínuo. É notável o que se diz do crítico literário Floc (Frederico Lourenço do Couto) e do gramático Lobo - os dois mais altos ápices da intelectualidade do Globo. Lobo era defensor do purismo, de um código tirânico, de uma língua sagrada. Acaba num hospício, sem falar, com medo que o falar errado o tenha impregnado e tapando os ouvidos para não ouvir. Floc "confundia arte, literatura, pensamento com distrações de salão; não lhes sentia o grande fundo natural, o que pode haver de grandioso na função da Arte. Para ele, arte era recitar versos nas salas, reqüestar atrizes e pintar umas aquarelas lambidas, falsamente melancólicas. [...] as suas regras estéticas eram as suas relações com o autor, as recomendações recebidas, os títulos universitários, o nascimento e a condição social." Certa noite, volta entusiasmado de uma Apresentação de música e vai escrever a crônica para o dia seguinte. Após algum tempo, o paginador o apressa. Ele manda esperar. Floc tenta escrever o que viu e ouvira, mas seu poder criativo é nulo, sua capacidade é fraca. Ele se desespera. O que escreve rasga. Após novo pedido do paginador, ele se levanta, dirige-se a um compartimento próximo e se suicida com um tiro na cabeça. Estando a redação praticamente vazia, o redator de plantão chama Isaías e pede para que ele se dirija para o local onde Ricardo Loberant se encontra e jurasse que nunca diria o que viu. Isaías vai ao local indicado e surpreende Loberant e Aires d'Avila numa sessão de orgia e os chama apressadamente para o jornal. Loberant passa então a olhar com mais atenção a Isaías e o promove até repórter. Divide confidências e farras. Isaías ganha a proteção e dinheiro de Ricardo Loberant. Depois da euforia inicial, Isaías se ressente. Lembrava-me de que deixara toda a minha vida ao acaso e que a não pusera ao estudo e ao trabalho com a força de que era capaz. Sentia-me repelente, repelente de fraqueza, de falta de decisão e mais amolecido agora com o álcool e com os prazeres... Sentia-me parasita, adulando o diretor para obter dinheiro... Em dado momento do livro, Lima Barreto escreve: "Não é o seu valor literário que me preocupa; é a sua utilidade para o fim que almejo." Valor literário entenda-se como o "valor" vigente naquela época, do escrever bonito e empolado, gramaticalmente correto, em busca de palavras desconhecidas em empoerados dicionários, em busca da forma. Literatura era tudo, menos comunicação e arte.


FICHA TÉCNICA:

Editora: Riedel

Ano: 1989

Edição: 1

Número de páginas: 232

Acabamento: Brochura

Formato: Médio

Preço médio: R$ 45,90

ROTEIROS CULTURAIS: MUSEU IMPERIAL DE PETRÓPOLIS


Localizado no antigo Palácio Imperial, a residência preferida de D. Pedro II, mandado construir em 1845 pelo Imperador e dado por concluído em 1864. A construção em estilo neoclássico é considerada relativamente simples, para residência de soberanos, mas perfeitamente adaptada à função de casa de campo, sem deixar de ser elegante. Possui um corpo central de dois pavimentos e um terraço sobre o pórtico e duas alas dotadas cada qual de 12 janelas. Na fachada central, figuram as armas do Império.

Três arquitetos além de Júlio Frederico Koeler, autor do projeto original, colaboraram na construção: José Cândido Guillobel, Araújo Porto Alegre e José Maria Jacinto Rabelo.
Foi construído com recursos particulares do Imperador, nas terras da Fazenda do Córrego Seco, herdadas de seu pai, D. Pedro I que sonhou ali construir seu Palácio de Verão, o Palácio da Concórdia. Foi construído solidamente com largas paredes de pedra com madeira de lei procedentes de várias regiões do país. Seus jardins planejados pelo botânico Jean Baptiste Binot com orientação pessoal de D. Pedro II conservam até hoje suas características, com variedade de espécies botânicas originais, estátuas gregas, fontes e repuxos.
Desde 1848 D. Pedro II passou a veranear no seu Palácio de Petrópolis. Com exceção dos verões de 1865 à 1869, justamente os do período que abrangeu a guerra do Paraguai, sua estada em Petrópolis prolongava-se por quase 6 meses, aproveitando então para dedicar-se a seus estudos prediletos, fazer visitas a educandários e dar longos passeios a pé e a cavalo.
Após a Proclamação da República o Palácio foi alugado ao Colégio Notre Dame de Sion (1892-1908) e ao Colégio São Vicente de Paula (1909-1940).
Alcindo de Azevedo Sodré, um ex-aluno do Colégio São Vicente de Paula, apaixonado por história, sonhava acordado com a transformação do seu colégio em um museu histórico. Graças a sua intervenção junto ao Presidente Getúlio Vargas criou em 16 de março de 1943 o Museu Imperial.
A atração principal é a coroa de D. Pedro II, exibida com medidas de segurança. É toda em ouro cinzelado, ornamentada com brilhantes e pérolas, também em exposições a coroa de Pedro I e o cetro em ouro. Destacam-se também a sala de visitas da Imperatriz, sala de jantar, de música, os quartos de D. Pedro II e a sala das jóias, além da sala de exposições temporárias. Possui grande quantidade de objetos e peças além de obras raras de grande interesse para o estabelecimento da nossa história.



COMO CHEGAR LÁ:
Endereço
Rua da Imperatriz, 220 – Centro
Telefone
24 2237-8000
Fax
24 2237-8540
Visitação
terça a domingo das 11h às 18h (bilheteria até às 17h30m)
Site
www.museuimperial.gov.br

BERLUSCONI É "LIBERTADO" PELA NOVA LEI DE IMUNIDADE ITALIANA


O primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi, agradeceu aos parlamentares que lhe concederam imunidade contra processos judiciais em uma lei aprovada pelo parlamento nesta semana, dizendo: "Vocês me libertaram".
"Finalmente, os magistrados não podem mais me perseguir", disse o bilionário de 71 anos, segundo os senadores com quem se encontrou a portas fechadas na quarta-feira.
"Agora, aos sábados, posso trabalhar calmamente e não terei de me encontrar com meus advogados", brincou Berlusconi, segundo publicaram jornais italianos na quinta-feira.
Sancionada pelo presidente Giorgio Napolitano na quarta-feira, a lei suspende os casos criminais contra o premiê, o presidente e os chefes das duas câmaras do Parlamento, durante o período em que estiverem no poder.
Foi uma vitória do líder conservador, que diz que promotores com motivações políticas o perseguem desde que entrou na política, há 14 anos. Mas os críticos dizem que a lei tem o objetivo de livrá-lo de aborrecimentos legais.
Berlusconi é acusado em Milão de ter pago 600 mil dólares ao advogado britânico David Mills em 1997. O dinheiro teria vindo de "fundos secretos" de sua empresa Mediaset SpA --o maior canal de TV privado da Itália-- para segurar detalhes incriminadores de seus negócios. Ambos negam.
Berlusconi poderia optar por renunciar à imunidade e enfrentar as batalhas judiciais.
O primeiro-ministro contabiliza 2.500 audiências, 587 visitas à polícia e 174 milhões de euros (272,9 milhões de dólares) em honorários legais ao longo de sua carreira política. Ele ganhou todas as causas, por absolvição ou porque prescreveram.


(Phil Stewart - Reuters.)

quarta-feira, 23 de julho de 2008

CINEMA A LA CARTE: AMARCORD


O filme "Amarcord", lançado em 1973 e dirigido por Federico Fellini, é considerado por muitos críticos a obra-prima do cineasta italiano. A trama se desenrola numa pequena cidade da Itália, no final dos anos 30, onde a vida de um vilarejo é relatada segundo a ótica do garoto Titta ( Bruno Zanin) - uma espécie de alter-ego do diretor. Nos deparamos, então, com pessoas comuns, vivendo suas vidas numa vila longe dos grandes centros e - consequentemente - longe dos grandes acontecimentos.A palavra "Amarcord" é derivada de "mi recordo", expressão utilizada na região de Emilia-Romagna, onde Fellini nasceu e que significa algo como "eu me recordo". Daí, percebe-se que o diretor deseja contruir um mosaico de recordações neste que é, sem dúvida, seu trabalho mais auto-biográfico. Para o funcionário público Paulo César Morais, o filme é a obra mais bem acabada do cineasta: "Esse é o filme mais completo dele. Pra mim, representa o auge do Fellini. Tem aquela nostalgia dele, o humor irônico, um pouco de política..."A narrativa não-linear demonstra a vontade do diretor de romper com o tradicional "começo-meio-fim" das produções norte-americanas, pois a película não se prende a uma sequência rígida no desenrolar dos acontecimentos, que vem e vão com naturalidade. Porém, apesar desse aparente relaxamento da narrativa, temos um filme muito bem amarrado. Toda a história do vilarejo se passa no período exato de um ano, representado pela chegada da primavera no início do filme - fenômeno que volta a se repetir no final da película.Trata-se de um clássico. E, como tal, repleto de cenas clássicas: o garoto Titta sendo quase esmagado pelos seios enormes da dona do armazém, o tio louco de Titta em cima de uma árvore gritando "voglio una dona!" (eu quero uma mulher!), o desfile fascista, a cena dos garotos no carro, a passagem do transatlântico pelo vilarejo... E tudo isso embalado pela trilha sonora espetacular de Nino Rota. Em "Amarcord", Fellini prova que recordar é viver.





FICHA TÉCNICA:

Título Original: Amarcord
Gênero: Drama
Origem: Itália/França

Ano:1974
Duração: 127 min
Direção: Federico Fellini


Elenco:
Pupella Maggio, Armando Brancia, Magali Noël, Ciccio Ingrassia, Nando Orfei, Luigi Rossi, Bruno Zanin, Gianfilippo Carcano, Josiane Tanzilli, Maria A.Beluzzi, Giuseppe Ianigro, Ferruccio Brembilla, Antonino F.Di Bruno, Mauro Misul, Ferdinando Villella.


Sinopse: Numa pequena cidade italiana na década de 30, sob domínio do facismo, várias histórias se cruzam com as de uma família cujos membros assistem às manifestações em honra do Duce ( lider facista Benito Mussolini ), à passagens do transatlântico "Rex", à chegada de um misterioso emir e suas odaliscas, aos filmes de Gary Cooper no cinema local è a passagem dos grandes pilotos da tradicional " Mile Miglia ". Mágico e arrebatador, com personagens inesquecíveis criados a partir das lembranças da infância de Fellini (1920-1993). Tudo ao som de belos e nostálgicos temas musicas de Nino Rota.


Premiação: Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.
Distribuição em Vídeo: Warner
Distribuição em DVD: Continental

RELAÇÕES DE CAUSA E EFEITO


Nos anos 80, era comum usar-se a expressão "pecado estrutural" para designar sistemas cujo funcionamento conduzia ao mal. Naqueles tempos em que verdades e consensos se enredavam nos torvelinhos ideológicos, a Teologia da Libertação (TL) doutrinava que o instrumento corretivo do pecado estrutural, instrumento tão sábio e perfeito que muitos o identificavam com o "Reino de Deus", era o socialismo. O passar dos anos, no entanto, mostrou o contrário: caiu o muro de Berlim, escancarou-se a Muralha da China e até Cuba, suspeita-se, busca um jeito de mandar essas idéias ao devido lugar sem que a dinastia Castro e sua corte tenham que pagar maior vexame. O século passado evidenciou, largamente, que existem sistemas econômicos que enfrentam a riqueza gerando miséria e outros que enfrentam a miséria pela geração de riqueza. A economia de mercado, aliás, exibe méritos que a poderiam beatificar. Tem milagres comprovados e ampla produção de benefícios em favor daqueles excluídos a respeito dos quais a TL tanto falou e pelos quais, objetivamente, nada fez. É claro que na economia de mercado, como em quaisquer formas de relação humana, ocorrem perversões e delitos que atentam contra o bem comum e devem, à luz da prioridade da Política, ser objeto de correção. No entanto, sob liberdade econômica, em menos de duas décadas, centenas de milhões de pessoas, na Europa Oriental, bem como no Leste e Sul da Ásia, emergiram da linha da miséria. Os benefícios de medidas que assegurem estabilidade política, estimulem competitividade e atraiam investimentos não são apenas teóricos. Ao contrário, são constatados na prática dos povos, em pequenas nações como a Irlanda e em mega-problemas sociais e demográficos como a China e a Índia. O caso chinês salta aos olhos. A partir de 1949, por quase meio século, a China tornou-se uma das mecas do comunismo. E, não por acaso, um dos países mais miseráveis do mundo. Nos últimos dez anos, abandonando aquele sistema econômico, a percentagem da população que vive com menos de um dólar diário caiu de 61 para 17 por cento e trezentos milhões de pessoas saíram da linha da miséria! E note-se: sob repugnante totalitarismo político e com o mais desqualificado capitalismo do planeta. Enquanto isso, nós, os ibero-americanos, devido ao nosso absurdo modelo político, nosso populismo, nosso patrimonialismo e inigualável aptidão para sermos enganados pelos ouvidos, ainda estamos na periferia do jogo. A única exceção regional cabe ao Chile, que ocupa, entre os países do mundo, a 11ª posição no Índice de Liberdade Econômica e o 1º lugar no Índice de Desenvolvimento Humano do subcontinente. Chego, enfim, ao ponto que pretendia. De fato, modelos e sistemas não são inocentes. Há "pecados" estruturais. Sistemas e modelos produzem conseqüências boas ou más, segundo a inteligência de suas concepções. Eis por que não me canso de apontar os defeitos dos modelos da América Ibérica. Eles são bem diferentes, aliás, daqueles que, adotados na península-mãe após sua redemocratização, rapidamente levaram Espanha e Portugal ao Primeiro Mundo. Assim como a economia socialista só ampliou a miséria que pretendia eliminar, assim também as teses e os modelos políticos em voga no Brasil e arredores jogam contra a prosperidade dos nossos povos, contra nossas possibilidades de vencer a pobreza e estimulam a corrupção. Idéias e sistemas melhores geram resultados superiores. Ah! Antes que me esqueça e ironias à parte: o Reino de Deus é outra coisa.


Percival Puggina (Zero Hora, 20/07/2008)
LEITURAS AFINS:
Darcy Bessone. O Papel do Estado no Domínio da Economia Capitalista. Editora Imprensa Oficial MG. 1999. R$ 32,50.
Paul Singer. O Capitalismo - Sua Evolução, sua Lógica e sua Dinâmica . Editora Moderna. 1987. R$ 25,00

NA MEMÓRIA: A MAIORIDADE DE DOM PEDRO


Em 23 de julho de 1840, Dom Pedro de Alcântara se tornava Imperador aos 14 anos de idade.
Desde 1835, a idéia de antecipar a maioridade já havia surgido no cenário político da Corte. Proprietários de escravos e de terras estavam assustados com a experiência de descentralização ocorrida durante o Período Regencial, que resultara em tantas revoltas sociais. O restabelecimento da autoridade monárquica era visto como a solução para a crise política.
Os liberais ou progressistas, fora do poder desde a renúncia do Regente
Feijó, apoiaram a idéia, esperando voltar ao governo. Os conservadores ou regressistas viam a proposta de antecipação como forma de consolidar a Monarquia e de preservar a unidade do Império. No Governo, desde a eleição de Pedro de Araújo Lima para o cargo de Regente Uno do Império, os conservadores pareciam não estar seguros da continuidade do regime regencial, que se mostrara incapaz no combate às várias revoltas e na manutenção da ordem política.
A campanha ganhou, ainda, o apoio dos "palacianos", também conhecidos como
áulicos, grupo ligado diretamente à Corte e liderado pelo conservador Aureliano Coutinho. Esse grupo político ficou conhecido com Clube da Joana por reunir-se freqüentemente na residência do mordomo da Casa Imperial, Paulo Barbosa da Silva, situada nas proximidades da Quinta da Boa Vista e perto do Rio da Joana. Os "palacianos" exerciam grande influência sobre a família real e sobre o Príncipe herdeiro, e sempre desejaram ver Pedro de Alcântara coroado.
Para os conservadores ou regressistas a desordem reinante devia-se aos excessos de liberdade ocasionados pelo
Ato Adicional e por outras medidas, como o Código do Processo Criminal de 1832. Pretendendo diminuir os poderes dados às assembléias provinciais, enviaram ao Legislativo a Lei Interpretativa do Ato Adicional, que, após três anos de discussões e debates foi aprovada a 12 de maio de 1840.
Em abril de 1840, por proposta do senador José Martiniano de Alencar, pai do romancista José de Alencar, foi criada a Sociedade Promotora da
Maioridade, originalmente uma sociedade secreta que logo se tornou pública, passando a se chamar apenas Clube da Maioridade. Antônio Carlos de Andrada, um dos líderes do Partido Progressista, foi escolhido presidente, aproximando-se cada vez mais dos palacianos.
Os regressistas ou conservadores procuraram cercar a proposta de antecipação com inúmeros cuidados, restaurando a mística da figura imperial, o protocolo e as pompas reais nas solenidades públicas. Foi restabelecido o beija-mão, saudação que simbolizava o reconhecimento do Imperador por seus súditos. O próprio Regente Araújo Lima, na festa da Santa Cruz, à porta da igreja, inclinou-se ante o Imperador, beijando-lhe a mão, fato que, segundo o conservador Justiniano José da Rocha, provocou "na cidade a exaltação em uns, a indignação em outros e a surpresa de todos."
A campanha pela antecipação ganhou a Câmara, o Senado, e as praças. Manifestações populares em versos e em quadrinhas podiam ser ouvidas nos salões e nas ruas.
No dia 21 de julho de 1840, os representantes do Partido Progressista, ou Liberal, liderados por Antônio Carlos, apresentaram à Assembléia Geral um projeto de declaração da maioridade, antecipando o início do Governo
pessoal de D. Pedro II. O Governo regencial, procurando ganhar tempo, tentou evitar a votação, adiando a abertura das sessões para novembro. Inconformados, os deputados, com o apoio do Senado, formaram uma comissão que foi ao palácio de São Cristóvão pedir ao jovem Príncipe herdeiro que concordasse em assumir o Governo. Ele aceitou e, em 23 de julho de 1840, prestou juramento na Assembléia Geral.
"Juro manter a religião Católica Apostólica Romana, a integridade e indivisibilidade do Império, observar e fazer observar a Constituição política da nação brasileira, e mais leis do Império, e prover ao bem geral do Brasil, quanto em mim couber"
A antecipação da maioridade restabeleceu a paz no Império. A Regência foi extinta, e o Governo foi entregue a seu segundo Imperador, D. Pedro II, que completaria 15 anos no dia 2 de dezembro.
A sagração e coroação de D. Pedro II foi marcada para 18 de julho de 1841. A cidade do
Rio de Janeiro foi cuidadosamente embelezada para a cerimônia. Muitas obras foram realizadas com grandes gastos para os cofres públicos. As festas duraram muitos dias, encerrando-se no dia 24 de julho com um grande baile de gala no Paço da cidade.
Segundo o historiador Paulo Pereira de Castro, a maioridade não foi um golpe parlamentar, mas um golpe que contou com o consentimento do jovem príncipe. O movimento, liderado por Antônio Carlos de Andrada, transformou-se num golpe palaciano, que terminou com a queda dos conservadores e a volta dos liberais. No dizer de
cronistas do Império, D. Pedro, ao ser consultado pela comissão dos maioristas sobre se queria assumir o trono quando completasse 15 anos, ou imediatamente, teria respondido: "Quero já!”

Leituras afins:

José Murilo de Carvalho. D. Pedro II: Ser ou Não Ser. Companhia das Letras, 2007. R$ 37,90

Heitor Lyra. História de Dom Pedro II. 3 volumes. Editora Itatiais, 1977. R$ 100,00

LIVRO DO DIA - CONTINENTE EM CHAMAS: GLOBALIZAÇÃO E TERRITÓRIO NA AMÉRICA LATINA


Com textos de estudiosos latino-americanos, como Daniel Hiernaux-Nicolas, Delfina Trinca Fighera, Gustavo Montañez Gómez e Luis Riffo Pérez, entre outros, o livro traz análises que buscam mostrar a reorganização dos territórios à luz dos novos dados técnicos e políticos mundiais, além de revelar traços comuns das transformações e crises políticas, econômicas, sociais e territoriais nas perspectivas de cada país. Essas variáveis explicativas, juntas, podem apontar as formas, graus e natureza de cada país na globalização e as respectivas formas de exclusão.
“Continente em chamas – globalização e território na América Latina”, organizado por Maria Laura Silveira (Editora Civilização Brasileira), reúne oito artigos que abordam as diversas transformações econômicas, políticas e sociais e ajudam a entender as turbulências e as mutações em curso no continente. Os autores, todos vinculados à área da geografia, procuram pesquisar os impactos da globalização neoliberal neste vasto e diferenciado espaço territorial.
Ao estudar as experiências recentes do México, Venezuela, Colômbia, Uruguai, Chile, Argentina e Brasil, eles abordam a rica diversidade destes países, mas apontam as convergências que integram a região. “Na globalização, a América Latina mostra, mais uma vez, que não é homogênea, que as possibilidades e as mazelas da história do presente atingem-na diferenciadamente, que a lei que permite a mais-valia se faz a partir do uso específico de cada território nacional e que cada sociedade dá valor próprio às coisas, aos homens, às ações. Mas o período atual revela, também, que há um denominador comum no continente: a desvalorização do trabalho, fundamento da pobreza”, explica a organizadora do livro.
No estudo de cada nação, ficam evidentes os efeitos destrutivos e regressivos do neoliberalismo na região. Sob a hegemonia do capital financeiro, este modelo devastou os Estados nacionais, reduziu investimentos nas áreas sociais, desnacionalizou as economias e saqueou suas riquezas, atacou os direitos trabalhistas e gerou mais desemprego, violência e miséria. “Prometendo tirar a América Latina do marasmo, o ideário do Consenso de Washington foi aplicado nos seus rígidos princípios de estabilidade macroeconômica, abertura da economia, redução do papel do Estado e ajuste estrutural. Apresentada como conseqüência inevitável e indesejável do caminho da recuperação dos países, a pobreza foi, na verdade, uma produção deste receituário e, portanto, uma opção política do norte ao sul do continente”, conclui Maria Laura.
O apanhado de cada país é rico em informações. Daniel Hiernaux-Nicolas mostra os estragos causados no México pela “abertura brutal e repentina” da economia. Delfina Fighera prova como a riqueza do petróleo serviu à oligarquia, agravou os índices de pobreza e projetou a forte liderança de Hugo Chávez. Gustavo Montañez analisa o peso do narcotráfico, da explosão de violência e das guerrilhas na Colômbia. Álvaro Gallero aborda a espantosa regressão do “civilizado” Uruguai. Luis Riffo desmistifica a badalada inserção do Chile na globalização neoliberal. Maria Laura relata a destruição imposta pela ditadura financeira na Argentina. Mônica Arroyo estuda o aumento da vulnerabilidade e da dependência da economia no Brasil. Por fim, Lia Osório trata do sistema de Estados e dos limites internacionais da atual globalização.
O livro é bastante plural, inclusive com certas abordagens de viés liberal. Mas as análises e informações contidas nele ajudam a entender as recentes turbulências políticas e sociais no continente e a explicar a tendência em curso de fortalecimento da esquerda da América Latina. A devastação neoliberal, imposta pela ditadura financeira, resultou na explosão de insatisfação e revolta na região. O desejo de mudanças, de superação do neoliberalismo, tem levado os “excluídos” a votarem em militares rebeldes, em operários sindicalistas e em líderes camponeses. A frustração desta esperança, entretanto, pode reverter a alentadora guinada à esquerda da América Latina em luta por soberania, integração, democracia e justiça social.


Editora: Civilização Brasileira
Ano: 2005
Edição: 1
Número de páginas: 287
Acabamento: Brochura
Formato: Médio
Preço: R$ 33,00

CASO MADDIE ARQUIVADO


A Procuradoria-Geral da República (PGR) anunciou hoje o arquivamento do caso da jovem britânica desaparecida no Algarve, Madeleine McCann, uma vez que não foram obtidas provas de que os arguidos no processo tenham praticado qualquer espécie de crime.

Segundo um comunicado hoje emitido pela Procuradoria-Geral da República, "por despacho com data de hoje proferido pelos dois magistrados do Ministério Público competentes para o caso, foi determinado o arquivamento do inquérito relativo ao desaparecimento da menor Madeleine McCann, por não se terem obtido provas da prática de qualquer crime por parte dos arguidos".
Desta forma deixam de ser arguidos do caso tanto os pais da jovem desaparecida, Gerald e Kate, como o amigo da família Robert Murat, não estando agora sob quaisquer medidas de coacção.
A PGR admite que o caso poderá vir a ser reaberto o por iniciativa do Ministério Público ou a requerimento de algum interessado "se surgirem novos elementos de prova que originem diligências sérias, pertinentes e consequentes".
O documento acrescenta que, "decorridos que sejam os prazos legais, o processo poderá ser consultado por qualquer pessoa que nisso revele interesse legítimo, respeitados que sejam o formalismo e limites impostos por lei".


(www.diarioeconomico.com)

AGENDA: I ENCONTRO DE HISTORIADORES SUL-AMERICANOS


A Fundação Alexandre de Gusmão e o Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais organizarão o I Encontro de Historiadores Sul-Americanos, "200 Anos de Independência: Olhar o Futuro numa Perspectiva Sul-Americana”, que reunirá doze historiadores, um de cada país da região, com o propósito de promover um debate sobre a evolução histórica e perspectivas das doze nações da América do Sul.Confira abaixo a programação:


Data: 24 de Julho de 2008


Programação:

9 horas - Abertura: Embaixador Jeronimo Moscardo, Presidente da Fundação Alexandre de Gusmão; Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, Secretário-Geral do Ministério das Relações Exteriores; Embaixador Carlos Henrique Cardim, Diretor do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais.


9 e 30 às 13 horas - Debate
Debatedores:Argentina – Professor Doutor Mário Rapoport – Professor Doutor Amado Cervo (UnB) Chile – Professor Doutor Luciano Tomassini, da Colômbia – Professor Marco Naranjo, da Guiana – Professor Doutor Tato C. Mangar, do Paraguai – Professor Doutor Juan Carlos Herken Krauer, do Peru – Professor Doutor Manuel Burga, do Suriname – Professor Doutor Jerome Egger, do Uruguai – Professor Doutor Gerardo Caetano, da Venezuela.


Convidados: Professor Doutor Gilmar Masiero (UnB); Professora Doutora Maria Hermínia Tavares de Almeida (USP)Professora Doutora Cristina Soreanu Pecequilo (UNESP)Jornalista Mauro Santayana (JB) – falta confirmar; Professor Doutor Eiiti Sato (UnB)Professor Doutor Wanderley Guilherme dos Santos (UCAM)Professor Doutor Willians Gonçalves (UERJ)


Encerramento – 13 horas

Almoço – 13 e 30 horas
(Fonte: FUNAG)

PROPOSTA DOS EUA DETONA NOVA CRISE


Com exigências sobre os mercados emergentes e sem nenhum efeito prático para reduzir as distorções no comércio agrícola, o governo americano apresentou uma oferta de corte de subsídios para tentar salvar a Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC). Mas a insatisfação de países emergentes acabou detonando verdadeira guerra na reunião de mais de sete horas, ontem, o que colocou a entidade à beira de uma crise e obrigou a reformulação de todo o processo da Rodada Doha. A Casa Branca diz que aceitaria o teto de US$ 15 bilhões por ano na distribuição de recursos a seus produtores rurais, com a condição de que as tarifas de importação nos países emergentes fossem retiradas para bens industriais.Washington foi atacado pelo Brasil e outros países emergentes, que acusam os americanos de estar "reciclando" uma oferta antiga e de manipular o impacto da medida nos próximos anos. A reunião de ontem, em Genebra, para tratar da oferta dos EUA, se transformou em um palco de acusações e colocou a rodada em risco. O encontro acabou em caos e a solução foi cancelar as reuniões de hoje. O diretor da OMC, Pascal Lamy, alertou que as negociações poderiam durar 15 dias. Os países optaram por fazer consultas bilaterais para tentar solucionar a crise. A conferência sobre serviços, que era prevista para amanhã, também foi adiada, numa demonstração de que os problemas são sérios. Por enquanto, o Itamaraty não decretou o fracasso do processo e espera que os americanos façam novas concessões nos próximos dias. Antes do encontro, o chanceler Celso Amorim tentava manter otimismo. "Estamos decepcionados com a oferta, mas é um começo", disse o ministro.


(Jornal do Commercio, 23/07/2008)

terça-feira, 22 de julho de 2008

NA MEMÓRIA: O LEVANTE DO GUETO DE VARSÓVIA.


Há exatos 66 anos teve início a deportação sistemática dos judeus do Gueto de Varsóvia. Cerca de um ano depois, em 19 de abril de 1943 irrompeu o famoso levante do Gueto de Varsóvia, na retaguarda da frente de guerra nazista, golpeada, mas ainda não destruída, após a derrota e capitulação do 6º Exército alemão na Batalha de Stalingrado (2 de fevereiro de 1943). Após El Alamein, no Egito, e Stalingrado, a certeza da derrota do nazi-fascismo era uma questão de tempo para os aliados, compartilhada até por facções consideráveis do alto comando militar e político alemão. Mas, contrariando qualquer racionalidade militar, parte do esforço de guerra nazista continuou alocado na faina diabólica de exterminar etnias e segmentos humanos estigmatizados, em especial, e com uma rapidez mórbida, os judeus.
O pano de fundo do levante situou-se, pois, entre uma esperança ainda longínqua de vitória e a constatação de que provavelmente ela chegaria tarde para salvar vidas. O gueto de Varsóvia abarcava, no princípio de 1942, meio milhão de pessoas, desalojadas dos bairros da cidade e de pequenos guetos no interior do país, isoladas em um exíguo perímetro urbano e nele submetidas a pavorosas condições de vida. Em abril de 1943, os remanescentes reduziam-se talvez a trinta mil. A revolta foi o grito final de uma comunidade exangue, sobrevivente das sucessivas deportações para campos de extermínio instalados no leste da Polônia, desprovida de meios de subsistência e carente de poder bélico, mas que surpreendeu os alemães, prolongando-se a resistência armada, organizada e esporádica, por dois a três meses. Naquelas circunstâncias extremas, diferentes percepções da vida e do mundo presentes na rua judaica foram capazes de chegar a um consenso sobre a derradeira fronteira do significado de “ser judeu” e de “sobrevivência judaica”. Assim, prepararam contra o inimigo uma reação consciente na qual procuraram, menos que uma impossível vitória, preservar a dignidade judaica e humana e rejeitar uma “solução final” de ambas. O aparato genocida fez emergir o desejo conjunto de fincar na consciência dos povos e na memória judaica a lembrança pétrea de que não mais iríamos como gado ao matadouro.

Mas o Holocausto e o levante nos propõem um desafio: atualizar constantemente este lembrar nas circunstâncias históricas em que vivemos; identificar se estamos nesta última linha de defesa, esse “não mais” do qual se torna impossível recuar.O exercício da solidariedade judaica está e esteve sempre em pauta. Quais seriam, nas tensões entre unidade e diversidade, os momentos em que uma afinidade de origem ou vivência deveria prevalecer sobre as naturais diferenças de concepção do mundo que segmentavam e segmentam a vida judaica? Existem critérios para julgar os consensos e/ou dissensos dentro da história da “nação”?
Aos mais afoitos, aconselharia cautela. Desde a Antigüidade, a História judaica, ao contrário do que um exame superficial possa sugerir, é rica em dissensos, mesmo em circunstâncias em que esteve em jogo a própria noção de sobrevivência nacional ou física dos judeus. Os profetas Ezequiel e Jeremias tinham suas próprias opiniões a respeito da inutilidade de uma resistência aos babilônios, mesmo sendo estas em bases teológicas; zelotes, sicários e Massada, de um lado, e rabi Iohanan Ben Zakai, de outro, nos evidenciam reações completamente diferenciadas frente ao invasor romano.
Por outro lado, o Holocausto, o surgimento do Estado de Israel, a Guerra dos Seis Dias despertaram em diferentes extratos das coletividades judaicas no mundo um senso comum de apreensão, angústia, traumas e fantasmas, a noção de que estava em jogo mais do que um embate rotineiro.
A coesão política dos judeus não é, pela própria essência, uma decisão unilateral ou propriedade particular de um grupo; não é também um fato comum. Frente a circunstâncias tidas como adversas, nunca foi automática a formação de uma unidade judaica. Consensos, convergências foram momentos especiais produzidos por acontecimentos únicos. Não devemos cair na tentação de tomar como evidente o que nem sempre o foi.
Na própria luta antinazista, por exemplo, cada momento da trajetória hitlerista produziu nos movimentos judaicos estratégias diferenciadas que estes julgavam apropriadas na ocasião. Chaim Arlozoroff, em nome da organização sionista, negociou em 1933 com o establishment nazista um acordo – Haavará, em hebraico – que permitia aos judeus alemães migrar para Israel e retirar em forma de mercadorias parte de suas economias congeladas em bancos alemães. Este fato possibilitou, até 1938, a saída e sobrevivência de muitos. Por esta “traição”, Chaim Arlozoroff foi assassinado por grupos simpáticos ao revisionismo.
Em outro momento, devido ao surpreendente Pacto Ribentropp-Molotov, assinado em 1939, os judeus progressistas ficaram, por orientações partidárias, paralisados até 1941 na luta contra seus carrascos.
O movimento sionista em Israel talvez pudesse ter dado uma prioridade maior ao que se passava no coração da Europa, mas a luta pela construção de um Estado judeu e uma concepção pejorativa do que seria a Diáspora inibiram uma maior concentração de esforços. Após a guerra, o sionismo e a comunidade judaica em geral talvez pudessem ter dado mais atenção aos sobreviventes do Holocausto em lugar de fazer uso político do Holocausto.
Trazendo a questão para o âmbito doméstico, desde 1933, seguindo orientações de suas centrais ideológicas, judeus comunistas e sionistas não conseguiram formar no Brasil uma frente interna antifascista. Quando, a partir de 1934, o Komintern, mudando radicalmente de orientação, empenhou-se na formação das grandes frentes populares contra o nazi-fascismo em todos os países, aqui no Brasil as organizações progressistas excluíram os sionistas desta coligação e estes não se mostraram, na verdade, interessados em integrá-la.
Os sionistas e as lideranças comunitárias judaicas brasileiras fizeram só uma grande manifestação antinazista, em 30 de março de 1933,nas ruas da cidade do Rio de Janeiro, que deveria terminar no Teatro República, na avenida Gomes Freire. Proibido o ato pela polícia pouco antes de sua realização, as pessoas presentes em volta do teatro foram dispersas com violência. A repressão se estendeu à praça Onze, chegando a polícia a violar a sinagoga Beit Israel, na rua de Sant’Anna, 22, o que mereceu uma única reação “oficial”, a do rabino Isaias Raffalovich, que remeteu carta de protesto ao ministro da Justiça, Francisco Antunes Maciel. Este a endereçou ao chefe de polícia, Felinto Muller, que, por sua vez, designou a DESPS (Delegacia Especial de Segurança Política e Social, posteriormente DOPS) para respondê-la. O delegado especial capitão Afonso Henrique Miranda Correa alegou que na manifestação houvera infiltração de comunistas e ela ameaçava as relações com nações amigas do Brasil, entenda-se aí a Alemanha
Em 1934, ensaiou-se uma mobilização comunitária através da criação da Confederação Israelita Brasileira, cuja missão seria lutar principalmente contra os integralistas. A solenidade de fundação da entidade foi marcada para 25 de novembro, na sede do Centro Bnei Hertzl, na rua Conselheiro Josino, 14. Desta Confederação Israelita Brasileira pouco se ouve falar nos anos dramáticos de 1935 a 1937.
Outras táticas, menos de confronto direto e mais de dissuasão, foram tentadas. O rabino Isaias Raffalovich, em suas memórias, relata seu encontro pessoal e cordial com Plínio Salgado, tentando convencê-lo a não veicular idéias, propaganda e ação anti-semitas.
Aqueles que participaram do levante do Gueto de Varsóvia talvez ficassem chocados com as disputas que se travaram na comunidade carioca na década de 1950 em torno das solenidades relativas ao levante, a ponto de se articularem dois eventos separados. O consenso no fragor da luta se transformou em dissenso político em torno da apropriação de sua lembrança. O exercício da solidariedade judaica está e esteve sempre em pauta. Quais seriam, nas tensões entre unidade e diversidade, os momentos em que uma afinidade de origem ou vivência deveria prevalecer sobre as naturais diferenças de concepção do mundo que segmentavam e segmentam a vida judaica? Existem critérios para julgar os consensos e/ou dissensos dentro da história da “nação”?
Aos mais afoitos, aconselharia cautela. Desde a Antigüidade, a História judaica, ao contrário do que um exame superficial possa sugerir, é rica em dissensos, mesmo em circunstâncias em que esteve em jogo a própria noção de sobrevivência nacional ou física dos judeus. Os profetas Ezequiel e Jeremias tinham suas próprias opiniões a respeito da inutilidade de uma resistência aos babilônios, mesmo sendo estas em bases teológicas; zelotes, sicários e Massada, de um lado, e rabi Iohanan Ben Zakai, de outro, nos evidenciam reações completamente diferenciadas frente ao invasor romano.
Por outro lado, o Holocausto, o surgimento do Estado de Israel, a Guerra dos Seis Dias despertaram em diferentes extratos das coletividades judaicas no mundo um senso comum de apreensão, angústia, traumas e fantasmas, a noção de que estava em jogo mais do que um embate rotineiro.
A coesão política dos judeus não é, pela própria essência, uma decisão unilateral ou propriedade particular de um grupo; não é também um fato comum. Frente a circunstâncias tidas como adversas, nunca foi automática a formação de uma unidade judaica. Consensos, convergências foram momentos especiais produzidos por acontecimentos únicos. Não devemos cair na tentação de tomar como evidente o que nem sempre o foi.
Na própria luta antinazista, por exemplo, cada momento da trajetória hitlerista produziu nos movimentos judaicos estratégias diferenciadas que estes julgavam apropriadas na ocasião. Chaim Arlozoroff, em nome da organização sionista, negociou em 1933 com o establishment nazista um acordo – Haavará, em hebraico – que permitia aos judeus alemães migrar para Israel e retirar em forma de mercadorias parte de suas economias congeladas em bancos alemães. Este fato possibilitou, até 1938, a saída e sobrevivência de muitos. Por esta “traição”, Chaim Arlozoroff foi assassinado por grupos simpáticos ao revisionismo.
Em outro momento, devido ao surpreendente Pacto Ribentropp-Molotov, assinado em 1939, os judeus progressistas ficaram, por orientações partidárias, paralisados até 1941 na luta contra seus carrascos.
O movimento sionista em Israel talvez pudesse ter dado uma prioridade maior ao que se passava no coração da Europa, mas a luta pela construção de um Estado judeu e uma concepção pejorativa do que seria a Diáspora inibiram uma maior concentração de esforços. Após a guerra, o sionismo e a comunidade judaica em geral talvez pudessem ter dado mais atenção aos sobreviventes do Holocausto em lugar de fazer uso político do Holocausto.
Trazendo a questão para o âmbito doméstico, desde 1933, seguindo orientações de suas centrais ideológicas, judeus comunistas e sionistas não conseguiram formar no Brasil uma frente interna antifascista. Quando, a partir de 1934, o Komintern, mudando radicalmente de orientação, empenhou-se na formação das grandes frentes populares contra o nazi-fascismo em todos os países, aqui no Brasil as organizações progressistas excluíram os sionistas desta coligação e estes não se mostraram, na verdade, interessados em integrá-la.
Os sionistas e as lideranças comunitárias judaicas brasileiras fizeram só uma grande manifestação antinazista, em 30 de março de 1933,nas ruas da cidade do Rio de Janeiro, que deveria terminar no Teatro República, na avenida Gomes Freire. Proibido o ato pela polícia pouco antes de sua realização, as pessoas presentes em volta do teatro foram dispersas com violência. A repressão se estendeu à praça Onze, chegando a polícia a violar a sinagoga Beit Israel, na rua de Sant’Anna, 22, o que mereceu uma única reação “oficial”, a do rabino Isaias Raffalovich, que remeteu carta de protesto ao ministro da Justiça, Francisco Antunes Maciel. Este a endereçou ao chefe de polícia, Felinto Muller, que, por sua vez, designou a DESPS (Delegacia Especial de Segurança Política e Social, posteriormente DOPS) para respondê-la. O delegado especial capitão Afonso Henrique Miranda Correa alegou que na manifestação houvera infiltração de comunistas e ela ameaçava as relações com nações amigas do Brasil, entenda-se aí a Alemanha
Em 1934, ensaiou-se uma mobilização comunitária através da criação da Confederação Israelita Brasileira, cuja missão seria lutar principalmente contra os integralistas. A solenidade de fundação da entidade foi marcada para 25 de novembro, na sede do Centro Bnei Hertzl, na rua Conselheiro Josino, 14. Desta Confederação Israelita Brasileira pouco se ouve falar nos anos dramáticos de 1935 a 1937.
Outras táticas, menos de confronto direto e mais de dissuasão, foram tentadas. O rabino Isaias Raffalovich, em suas memórias, relata seu encontro pessoal e cordial com Plínio Salgado, tentando convencê-lo a não veicular idéias, propaganda e ação anti-semitas.
Aqueles que participaram do levante do Gueto de Varsóvia talvez ficassem chocados com as disputas que se travaram na comunidade carioca na década de 1950 em torno das solenidades relativas ao levante, a ponto de se articularem dois eventos separados. O consenso no fragor da luta se transformou em dissenso político em torno da apropriação de sua lembrança.


HENRIQUE SAMET

MESA REDONDA: BRASIL, CHINA E ÍNDIA.


O Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília convida para a Mesa Redonda China e Índia – A Soft Power da Imponência do Dragão e da Elegância do Elefante, no dia 17 de junho, a partir das 18 h, no Auditório Joaquim Nabuco (Prédio da FACE - Campus Universitário Darcy Ribeiro, Asa Norte), evento realizado com o apoio do Instituto Brasileiro de Relações Internacionais - IBRI.
O convidado especial e expositor principal deste evento é o diplomata brasileiro Paulo Antônio Pereira Pinto, que tem larga experiência em assuntos asiáticos, tendo servido por mais de vinte anos na Ásia Oriental, sucessivamente, em Pequim, Kuala Lumpur, Cingapura, Manila e Taipé. É o primeiro Cônsul-Geral do Brasil em Mumbai, Índia.
China e Índia são temas de notícias frequentes, seja pela cobiça quanto ao acesso de centenas de milhões de seus potenciais consumidores à oferta de produtos e serviços estrangeiros, seja como resultado da disputa entre ambas por recursos minerais e energéticos em diferentes partes do mundo.Pouca atenção tem despertado, no entanto, a capacidade destes países emergentes no sentido de atrair e influenciar outras regiões do planeta. Isto ocorreria como resultado da divulgação da práticas, hábitos, criações e formas de raciocínio herdados ou marcados pela longa história indiana e chinesa.Em outras palavras, há pouca reflexão sobre a “soft power”- para utilizar o termo popularizado por Joseph Nye – na competição imaginária, entre o “elefante” e o “dragão” que simbolizam, respectivamente, cada país.


Expositor: Paulo Antônio Pereira Pinto, Cônsul-Geral do Brasil em Mumbai, Índia;
Debatedores: Prof. Argemiro Procópio (iREL-UnB) e Prof. Virgílio Arraes (iREL-UnB)
Moderador: Prof. Antônio Carlos Lessa, iREL-UnB


Informações adicionais podem ser obtidas na Secretaria do iREL-UnB, pelo e-mail irel@unb.br ou ainda pelo telefone (61) 33072426.

NA VIZINHA ARGENTINA...


O secretário de Agricultura, Javier de Urquiza, foi a primeira baixa importante no gabinete da presidente Cristina Fernández de Kirchner, depois da derrota sofrida por seu governo semana passada no Senado. Após uma disputa de quatro meses com os agricultores para aumentar os tributos sobre as exportações de grãos, um projeto de lei do governo sobre o assunto foi derrubado no Senado com o voto contrário do próprio vice-presidente de Cristina, Julio Cleto Cobos, que desempatou a votação - na Argentina, o vice-presidente preside o Senado. Desprestigiado, Urquiza foi afastado das negociações com o setor (do qual, teoricamente, ele seria a maior autoridade) desde que os ruralistas iniciaram as manifestações em março. Para o lugar dele estava praticamente confirmado ontem o nome do atual presidente do Instituto Nacional de Tecnologia Agropecuária (Inta, que tem no país um papel equivalente ao da Embrapa no Brasil), Carlos Cheppi. A nomeação viria com uma sinalização direta ao setor agropecuário do país. Segundo o jornal "Página 12", Cheppi já teria apresentado a Cristina um plano para elevar a produção de grãos do país dos atuais 95 milhões de toneladas para 148 milhões no período 2008-2015. Se a presidente Cristina Kirchner adotar o plano de Carlos Cheppi, será um sinal de retomada da iniciativa no tema. Uma política agrícola com maior amplitude e de longo prazo era uma das demandas dos ruralistas, além de que os tributos sobre exportação de grãos (também chamados "retenções") não fossem aumentados. No entanto, eles esperavam ser chamados para ajudar a formular o plano, o que nunca aconteceu. Desde março até o mês passado, quando o decreto que aumentava as retenções foi encaminhado como projeto de lei para aprovação do Congresso, os agricultores provocaram quatro locautes com interrupção das estradas, desabastecimento e alta de preços ao consumidor. O plano apresentado pelo novo secretário, de acordo com o jornal "Página 12", baseia as perspectivas de crescimento em uma nova política agrícola de estímulo ao aumento da produtividade, uso da tecnologia, maior "racionalidade" no uso da terra e da água e fortes investimentos em infraestrutura. Além do aumento de 55% na produção de grãos, o plano prevê um crescimento de 48% na produção de lácteos, 42% de carne, 50% em frutas e dobrar a produção de hortaliças. Engenheiro agrônomo, 53 anos, nascido em Mar del Plata, Cheppi tem 20 anos de carreira no Inta e teria sido indicado pelo ministro do Planejamento e Infra-estrutura, Julio de Vido, um dos funcionários que Cristina herdou do gabinete de seu marido, o ex-presidente Néstor Kirchner. Hugo Biolcati, vice-presidente da Sociedade Rural Argentina (SRA), uma das quatro entidades que lideraram o movimento dos ruralistas, disse ontem que não estava surpreso com a saída de Urquiza, já que ele estava afastado da discussão sobre as retenções. Sobre Cheppi, o vice-presidente da SRA afirmou apenas que "é um homem que conhece o tema e o setor". Além de Urquiza, foram demitidos também dois funcionários ligados ao vice-presidente Julio Cobos: o subsecretário de Combustíveis, Alejandro Rodríguez, e o diretor de Refinaria e Comercialização de Combustíveis, Eduardo Moreno. A imprensa argentina tem publicado que novas mudanças serão feitas no ministério de Cristina e que a presidente também está programando um pacote de medidas econômicas para relançar seu governo, abalado pela crise com os agricultores. Além de perder a maioria no Congresso, a presidente Cristina Kirchner sofreu forte queda de sua popularidade, de 56% em janeiro para 20% este mês. Os ruralistas fizeram ontem uma homenagem ao vice-presidente Julio Cobos, que garantiu a eles a vitória sobre o governo com seu voto "não" que desempatou a votação no Senado. Foi na abertura da Expo Rural, a maior feira anual do setor no país. O primeiro animal a entrar na exposição, um touro da raça Shorton, foi apelidado de "Cleto", o segundo nome de Julio Cobos.


Janes Rocha, de Buenos Aires

Valor Econômico


LIVRO DO DIA - DOMÍNIOS DA HISTÓRIA


Obra de referência para estudiosos e profissionais de história, nela os diversos autores – professores e pesquisadores – traçam um panorama atualizado dos vários campos de investigação na área e abordam os principais conceitos e polêmicas com ênfasena discussão sobre a questão dos paradigmas. Na primeira parte, Territórios do historiador, o leitor encontra um mapeamento dos grandes campos da história: a econômica, a social, a política, a das idéias, a das mentalidades e a cultural. Na segunda, Campos de investigação e linhas de pesquisa, são focalizados campos mais específicos, como a história agrária e a urbana, e a terceira parte, Modelos teóricos e novos instrumentos metodológicos, apresenta uma seção metodológica com orientação sobre como pensar em modelos teóricos.
Organizado por Ciro Flamarion e Ronaldo Vainfas, o volume reúne uma série de intelectuais, a exemplo de Ana Maria Mauad, Magali ngel, Maria Yedda Linhares, Mary Del Priore, Rachel Soihet, Ronaldo Raminelli, Sheila Castro Faria, Luciano Figueiredo, Manolo Florentino, Hebe Castro, Jacqueline Hermann, João Fragoso, Edgard Ferreira Neto, Eulália Lobo, Francisco Carlos T. Silva, Francisco Falcon e Virginia Fontes, abordando temas acerca dos territórios do historiador, paradigmas rivais, áreas, fronteiras, dilemas acerca da historia econômica, social, poder, idéias, mentalidades e cultura, envolvendo, ainda, a história agrária, urbana, das paisagens, empresarial, da família, demografia histórica, do cotidiano e da vida privada, das mulheres, da sexualidade, etnia, das religiões e religiosidades, os modelos, análise de textos, imagem como exemplos da fotografia e cinema, informática e os descaminhos da história.

Ficha técnica
Editora: CAMPUS
ISBN: 2147483647
Ano: 1997
Páginas: 528
Preço Médio: R$ 40,00

segunda-feira, 21 de julho de 2008

THE FUTURE OF NORTH AMERICA


By Robert A. Pastor (Extraído do Foreign Affairs)


On January 20, 2009, if not before, a new national security adviser will tell the incoming president of the United States that the first two international visitors should be the prime minister of Canada and the president of Mexico. Almost every new president since World War II has followed this ritual, because no two countries in the world have a greater impact economically, socially, and politically on the United States than its neighbors. The importance of Canada and Mexico may, however, come as a surprise to most Americans, as well as to the new president. In the presidential campaign, instead of discussing a positive agenda for North America's future, the candidates have focused critically on two parts of that agenda, the 14-year-old North American Free Trade Agreement (NAFTA) and immigration. And overall, one could conclude from listening to the campaign that Iraq is key to U.S. national security, China is the United States' most important trading partner, and Saudi Arabia and Venezuela supply most of the United States' energy.
None of these propositions is true. For most of the past decade, Canada and Mexico have been the United States' most important trading partners and largest sources of energy imports. U.S. national security depends more on cooperative neighbors and secure borders than it does on defeating militias in Basra.
The new president will take office at a low moment in U.S. relations with its neighbors. The percentage of Canadians and Mexicans who have a favorable view of U.S. policy has declined by nearly half in the Bush years. The immigration debate in Congress and the exchange between the two leading Democratic presidential candidates on who dislikes NAFTA more has left a bitter taste in the mouths of Canadians and Mexicans. The ultimatum issued by Senators Hillary Clinton (D-N.Y.) and Barack Obama (D-Ill.) to Canada and Mexico -- renegotiate NAFTA on U.S. terms, or else -- hardly displayed the kind of sensitivity to the United States' friends that they have promised. On the other side, Senator John McCain (R-Ariz.) has offered such an unvarnished defense of NAFTA that it would appear he feels nothing more is needed. Moreover, although an author of legislation on immigration reform, McCain retreated from such reform after being harshly criticized. CNN's Lou Dobbs' reports on the disastrous effects of illegal immigration and trade seem to have had a more profound effect on the national debate than many people have thought. Indeed, the candidates seem to have accepted Dobbs' variation on Hobson's choice -- either reject NAFTA or suffer decline as a candidate and as a nation.


Robert A. Pastor is a Professor at and Founding Director of the Center for North American Studies at American University. He is currently writing a book entitled The North American Idea.

SÉRIE "OS CISNES DO ITAMARATY" I - JOÃO GUIMARÃES ROSA


João Guimarães Rosa, contista, novelista, romancista e diplomata, nasceu em Cordisburgo, Minas Gerais, em 27 de junho de 1908, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 19 de novembro de 1967. Sucedeu a João Neves da Fontoura na Cadeira n. 2 da Academia Brasileira de Letras, para a qual foi eleito em 6 de agosto de 1963 e recebido em 16 de novembro de 1967, pelo acadêmico Afonso Arinos de Melo Franco.

Foram seus pais Florduardo Pinto Rosa e Francisca Guimarães Rosa. Aos 10 anos passou a residir e estudar em Belo Horizonte Em 1930, formou-se pela Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais. Tornou-se capitão médico, por concurso, da Força Pública do Estado de Minas Gerais. Sua estréia literária deu-se, em 1929, com a publicação, na revista O Cruzeiro, do conto "O mistério de Highmore Hall", que não faz parte de nenhum de seus livros. Em 36, a coletânea de versos Magma, obra inédita, recebe o Prêmio Academia Brasileira de Letras, com elogios do poeta Guilherme de Almeida.
Diplomata por concurso que realizara em 1934, foi cônsul em Hamburgo (1938-42); secretário de embaixada em Bogotá (1942-44); chefe de gabinete do ministro João Neves da Fontoura (1946); primeiro-secretário e conselheiro de embaixada em Paris (1948-51); secretário da Delegação do Brasil à Conferência da Paz, em Paris (1948); representante do Brasil na Sessão Extraordinária da Conferência da Unesco, em Paris (1948); delegado do Brasil à IV Sessão da Conferência Geral da Unesco, em Paris (1949). Em 1951, voltou ao Brasil, sendo nomeado novamente chefe de gabinete do ministro João Neves da Fontoura; depois chefe da Divisão de Orçamento (1953) e promovido a ministro de primeira classe. Em 1962, assumiu a chefia do Serviço de Demarcação de Fronteiras.
A publicação do livro de contos Sagarana, em 1946, garantiu-lhe um privilegiado lugar de destaque no panorama da literatura brasileira, pela linguagem inovadora, pela singular estrutura narrativa e a riqueza de simbologia dos seus contos. Com ele, o regionalismo estava novamente em pauta, mas com um novo significado e assumindo a característica de experiência estética universal.
Em 1952, Guimarães Rosa fez uma longa excursão a Mato Grosso e escreveu o conto "Com o vaqueiro Mariano", que integra, hoje, o livro póstumo Estas estórias (1969), sob o título "Entremeio: Com o vaqueiro Mariano". A importância capital dessa excursão foi colocar o Autor em contato com os cenários, os personagens e as histórias que ele iria recriar em Grande sertão: Veredas. É o único romance escrito por Guimarães Rosa e um dos mais importantes textos da literatura brasileira. Publicado em 1956, mesmo ano da publicação do ciclo novelesco Corpo de baile, Grande sertão: Veredas já foi traduzido para muitas línguas. Por ser uma narrativa onde a experiência de vida e a experiência de texto se fundem numa obra fascinante, sua leitura e interpretação constituem um constante desafio para os leitores.
Nessas duas obras, e nas subseqüentes, Guimarães Rosa fez uso do material de origem regional para uma interpretação mítica da realidade, através de símbolos e mitos de validade universal, a experiência humana meditada e recriada mediante uma revolução formal e estilística. Nessa tarefa de experimentação e recriação da linguagem, usou de todos os recursos, desde a invenção de vocábulos, por vários processos, até arcaísmos e palavras populares, invenções semânticas e sintáticas, de tudo resultando uma linguagem que não se acomoda à realidade, mas que se torna um instrumento de captação da mesma, ou de sua recriação, segundo as necessidades do "mundo" do escritor.
Além do prêmio da Academia Brasileira de Letras conferido a Magma, Guimarães Rosa recebeu o Prêmio Filipe d’Oliveira pelo livro Sagarana (1946); Grande sertão: Veredas recebeu o Prêmio Machado de Assis, do Instituto Nacional do Livro, o Prêmio Carmen Dolores Barbosa (1956) e o Prêmio Paula Brito (1957); Primeiras estórias recebeu o Prêmio do PEN Clube do Brasil (1963).
Destacam-se as seguintes obras de Guimaraes Rosa: Sagarana, contos (1946); Com o vaqueiro Mariano, conto (1952); Corpo de baile, ciclo novelesco, 2 vols. (1956). Esta obra foi desdobrada, a partir da terceira edição (1964), em três volumes: Manuelzão e Miguilim, No Urubuquaquá, no Pinhém, e Noites do sertão; Grande sertão: Veredas, romance (1956); Primeiras estórias, contos (1962); Tutaméia (Terceiras estórias), contos (1967); Estas estórias, contos (1969); Ave, palavra, diversos (1970); além de obras em colaboração: O mistério dos MMM (1962) e Os sete pecados capitais (1964).



"Foi de incerta feita — o evento. Quem pode esperar coisa tão sem pés nem cabeça? Eu estava em casa, o arraial sendo de todo tranqüilo. Parou-me à porta o tropel. Cheguei à janela.Um grupo de cavaleiros. Isto é, vendo melhor: um cavaleiro rente, frente à minha porta, equiparado, exato; e, embolados, de banda, três homens a cavalo. Tudo, num relance, insolitíssimo. Tomei-me nos nervos. O cavaleiro esse — o oh-homem-oh — com cara de nenhum amigo. Sei o que é influência de fisionomia. Saíra e viera, aquele homem, para morrer em guerra. Saudou-me seco, curto pesadamente. Seu cavalo era alto, um alazão; bem arreado, ferrado, suado. E concebi grande dúvida.Nenhum se apeava. Os outros, tristes três, mal me haviam olhado, nem olhassem para nada. Semelhavam a gente receosa, tropa desbaratada, sopitados, constrangidos coagidos, sim. Isso por isso, que o cavaleiro solerte tinha o ar de regê-los: a meio-gesto, desprezivo, intimara-os de pegarem o lugar onde agora se encostavam. Dado que a frente da minha casa reentrava, metros, da linha da rua, e dos dois lados avançava a cerca, formava-se ali um encantoável, espécie de resguardo. Valendo-se do que, o homem obrigara os outros ao ponto donde seriam menos vistos, enquanto barrava-lhes qualquer fuga; sem contar que, unidos assim, os cavalos se apertando, não dispunham de rápida mobilidade. Tudo enxergara, tomando ganho da topografia. Os três seriam seus prisioneiros, não seus sequazes. Aquele homem, para proceder da forma, só podia ser um brabo sertanejo, jagunço até na escuma do bofe. Senti que não me ficava útil dar cara amena, mostras de temeroso. Eu não tinha arma ao alcance. Tivesse, também, não adiantava. Com um pingo no i, ele me dissolvia. O medo é a extrema ignorância em momento muito agudo. O medo O. O medo me miava. Convidei-o a desmontar, a entrar."

(Trecho de "Famigerado")