segunda-feira, 18 de abril de 2011
LUCRÉCIA BÓRGIA: LINDA E FATAL
Filha de Joana Cattanei e do cardeal Roderigo Bórgia, que mais tarde tornou-se o Papa Alexandre VI, Lucrécia teve uma vida cheia de episódios de intriga, assassinatos, luxúria, devassidão e incesto.
Enterrou maridos e acabou com a fama de envenenar homens com um "pó" que guardava num compartimento secreto em seu anel. Nunca houve evidências que provassem isso. Entretanto, não se pode negar que assassinatos foram cometidos tendo Lucrécia como pivô.
Confira alguns fatos e escândalos que marcaram a vida dessa bela mulher do século XV!
Desde pequena seus irmãos travavam uma disputa por sua preferência.
Aos treze anos já era uma mulher fatal que chamava a atenção de qualquer homem.
Em seu primeiro casamento (aos 13 anos), Lucrécia foi ignorada pelo marido e passou o tempo todo da festa alternando a companhia de seus irmãos que recitaram a ela poemas de amor quando ela se foi para o leito nupcial com o marido.
Seu primeiro casamento não se consumou de imediato, pois ela era considerada muito jovem, e Lucrécia se manteve virgem por dois anos aguardando o marido. Não sem, entretanto, curtir as orgias nos aposentos do pai e dos irmãos, no Vaticano. Nessa época, os boatos sobre incesto aumentavam cada vez mais e Lucrécia era acusada de manter relações sexuais com os irmãos e, até, com o próprio pai.
Seus irmãos planejaram o assassinato de seu marido para que ela pudesse se casar com um homem mais rico. Ela descobriu e aconselhou-o a fugir.
Após esse episódio, a jovem passou uma temporada num convento, enquanto seu pai e irmãos planejavam o divórcio alegando que seu marido era impotente e que o casamento não tinha se consumado. Nesse período, Lucrécia fica grávida e exitem inúmeras especulações sobre a paternidade: alguns dizem que o responsável foi um de seus irmãos, outros, um criado.
Após um jantar na casa da mãe, um dos irmãos de Lucrécia aparece morto num rio. O assassino? O outro irmão motivado por inveja da posição social e pelo ciúmes doentio que sentia de Lucrécia, que era mais próxima do morto.
Depois de assassinar o próprio irmão, César Bórgia matou um criado que teve um caso com sua irmã.
Mesmo grávida de seis meses, Lucrécia consegui convencer a todos que era virgem (escondendo sua situação sob várias saias) e se divorciou do primeiro marido.
O bebê foi reconhecido por César Bórgia, como sendo seu filho.
Mais uma vez enciumado e sangüinário, César assassina o segundo marido de Lucrécia.
A culpa recaiu sobre Lucrécia e diziam que seu marido tinha sido vítima de um de seus venenos (acusação sem nenhum fundamento).
O satirista Filolia difamava Lucrécia e sua família aos quatro ventos. Seu destino? Assassinado e mutilado.
Lucrécia casa-se pela terceira vez. Numa ocasião, cai doente e César ameaça o marido, dizendo que se algo acontecesse à irmã, o sangue dela não seria o único a ser derramado por lá. (Ele desconfiava que o marido a estaria tentando matar.)
César Borgia foi a inspiração de Maquiavel para o livro "O Príncipe".
Enfim, não se pode dizer que Lucrécia Bórgia tenha sido uma santa, por isso ela conquistou seu espaço aqui no "Malvadas". Entretanto, também não foi o demônio que pintam mundo afora. Digamos que ela tenha tido muito mais fama que atitudes maldosas de verdade. Mas, como diz o velho ditado: "quem tem fama, deita na cama."
sábado, 26 de fevereiro de 2011
Terra em Transe: a dicotomia de Paulo Martins

No filme "Terra em Transe" (1967), obra-prima de Glauber Rocha, Paulo Martins(Jardel filho) é um jornalista que pode ser classificado, grosso modo, como um "idealista". Inicialmente ligado à figura política conservadora de Porfírio Diaz (com quem forma, juntamente com Silvia - personagem de Danuza Leão, um triângulo amoroso), Martins, após sucessivos exames de consciência é gradativamente cooptado pela ativista Sara (Glauce Rocha) a apoiar o populista Felipe Vieira (José Lewgoy), na tentativa de criar um movimento dito "revolucionário" que tem como objetivo reduzir a miséria e a injustiça em Eldorado.
Há um diálogo no filme, de grande simbolismo, que representa a dualidade dessa personagem. Em um ambiente de grandes incertezas políticas, Sara pergunta:
Sara: _ Por que Paulo? por que você se lança nessa desordem?
Paulo (rindo amargamente): _ Que desordem?
Sara (observando a multidão): _ Olha!... Vieira não pode falar.
Paulo: _E durante mais de um século, ninguém falará!
Sara: _ Você joga Vieira no abismo! (...)
Paulo: _ Eu? ... o abismo está aí, medonho. Todos nós estamos nos dirigindo para ele...
Sara se atira nos braços de Paulo, implorando:
Sara: _ Não é culpa do povo! Não é culpa do povo! (...)
Paulo: _ Mas o povo corre atrás do primeiro que lhe erga uma espada ou uma cruz (...)
O pessimismo e, ao mesmo tempo, ambiguidade política de Paulo Martins é uma prova inconteste da duplicidade de sentido proposta por Glauber para constituir uma das personagens mais marcantes de todos os tempos no cinema nacional. No entanto, o mau uso da imagem (com toda sua dinamicidade), com a intenção de promover a afirmação de classes é tendências políticas é lamentável.
Quando Jefferson Domingos de Assunção escreve no site, www.cineplayers.com, que "Terra em transe, de Glauber Rocha, mais do que qualquer outro, é um filme fruto de seu tempo, a revoltosa década de 1960 (...) considerado revolucionário demais e um perigo para a juventude da época, socialista e antiimperialista" ignora que o gênio de Glauber foi capaz de produzir uma obra que está além de definições polarizadas politicamente. Acerca da personagem de Paulo Martins, por exemplo, bem definiu Hélio Pelegrino em artigo no velho JB:
"Há o poeta, Deus meu, o sórdido, o belo, o generoso, o ingênuo, o puro e maculado poeta Paulo Martins, homem dividido como um pedaço de víscera é dividida por uma faca, homem que sangra, e sonha, se encontra, e se aliena, e dança, e regouga, e tenta, e busca, e ama, e rodeia. Paulo Martins é a consciência em transe de Eldorado". Hélio Pellegrino, Jornal do Brasil, Rio, 30/08/81
Desse modo, é incoerente com a proposta de Glauber a tese que sustenta Terra em Transe como um manifesto revolucionário, parte integrante da geléia-geral das esquerdas na década de 60 no Brasil. O que Glauber propõe é ir além da mera dicotomia entre esquerda e direita: pensar a decadência das estruturas políticas do país, assim como o papel dos atores políticos, a partir das fraquezas e incoerências que se evidenciam no momento da ação política.
Pensemos, portanto, a aplicação na atualidade desse conceito.
sexta-feira, 8 de maio de 2009
"EU MESMO MENTINDO, DEVO ARGUMENTAR, QUE ISTO É BOSSA NOVA, ISTO É MUITO NATURAL"
De título homônimo, o livro de Ruy Castro poderia ser elogiado por sua fluidez de linguagem, com doses cavalares de informação sobre a cultura brasileira nas décadas de 30 a 60, ou pelo panorama completo da formação, consolidação e consagração da Bossa Nova como movimento musical e espírito de uma época. Vai além: é o resultado de uma pesquisa árdua, sangrenta, tipicamente castreana (vide as biografias de Carmen Miranda e Nelson Rodrigues, ou o inimitável “Saudades do Século XX”), que envolveu entrevistas como compositores, músicos, cantores, amigos e demais prosélitos da Bossa Nova.
A leitura concilia paixões, traições, amores e desamores, comicidade e tragédia. Uma surpresa a cada revelação de Jobim, Alf, Vinicius, João, Ronaldo, Nara e outros tantos, tão intimamente onipresentes nas nossas alegorias nostálgicas. Obviamente, o menino de Juazeiro que eternizou Ipanema é tratado pelo autor como um capítulo aparte, quase confundível com a própria geração que o cerca. Todos os caminhos levam a João Gilberto:
“Sua mãe devia ter razão em acha-lo, porque ele vivia esquecendo livros,cadernos e canetas pela rua. Certo dia, Joãozinho saiu com um par de sapatos novos e d. Patu recomendou-lhe, meio sério, meio de brincadeira , que não fosse perdê-los. Os moleques estavam jogando uma pelada no campinho e o convidaram para participar.
Joãozinho tirou os sapatos para jogar , mas lembrando-se do que sua mãe lhe dissera, enterrou-os na areia, para não perdê-los. Ao fim da pelada , foi procurá-los e não se lembrou onde os havia enterrado.Voltou descalço para casa e levou uns daqueles pitos inesqueciveis.
Chega de Saudade é um relicário de emoções ininterruptas. A leitura de cada parágrafo alimenta o desejo pelo próximo. Contudo, é necessária uma advertência: se você não gosta de ouvir ou ler sobre Bossa Nova, leia Paulo Coelho, Zibia Gasparetto ou ouça Chiclete com Banana !?!? Chega de Saudade é para os iniciados, os saudosistas, aqueles que nasceram (e sabem disso) com alguns anos de atraso, e para quem gosta de contemplar o silêncio, de preferência, com o “pac-tupac, tupac" e o "din, don” das batidas do violão.
sábado, 2 de maio de 2009
PARIS, PARIS...
“Chansons d’amour” (Monsieur Gilbert avec Marie Louise d’Avignon et l’Ensemble de Paris) é uma obra-prima da Som Livre: vinte e cinco sucessos da música romântica francesa condensados no nostálgico romantismo do vinil. Mais seletivo que o tradicional “Des Chansons D´amour”, o disco traz pérolas como "Padam, Padam"; "Parlez-moi d’amour"; "Pigalle" e as consagradas "La vie em rose" e 'Ne me quitte pas", dentre outras.
Gilbert Becaud se envolve de corpo e alma nos mistérios da música. Abraçado pelo Brasil nos idos de 1964, percorreu o país com o show “Uma noite em Paris”, uma retrospectiva dos inesquecíveis momentos da música francesa; sempre acompanhado de seu indefectível quinteto, ao som do accordéon-mussete, tipicamente parisiense.
Seja em festivais como em Viña del Mar e Parque del Plata, ou em trilhas sonoras, como no clássico erótico “Emmanuelle”, Monsieur Gilbert desfila seu vasto talento musical encantando os amantes das chansons parisienses.
Homenagem ao bicentenário da Revolução Francesa, o álbum é simplemente imperdível.
DEU NO NY TIMES!
Nativo de Oak Park, Illinois, Larry Rother fora correpondente do The Times para o Caribe e a América Latina quando aportou na 620 Eighth Avenue. Como correspondente do NY Times no Brasil, Rother acumula a experiência jornalística necessária para prover suas análises de conteúdo não meramente brazilianista. Contudo, nossos costumes políticos sempre levam um yankee em terra brasilis a se deparar com controvérsias das mais tenebrosas. Foi o que aconteceu em 2004, quando L. R quase foi expulso do Brasil por ousar discutir as peculiaridades do gosto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva por bebidas alcoólicas.
“Deu no New York Times” é fruto das experiências vividas por Rohter, durante esses anos todos, nos vários Brasis que o Brasil abriga. O livro reúne textos inéditos nos quais ele analisa o país sob uma ótica singular - a de um jornalista experiente, profundo conhecedor da nossa nação, escrevendo para o diário mais importante do mundo -, tratando de política, cultura, meio ambiente e raça, entre outros temas. Confira um trecho:
“'Fiquei puto porque, como pode um cidadão que nunca conversou comigo, que nunca tomou um copo de cerveja comigo, que nunca tomou um copo d’água comigo, fazer uma matéria de que eu bebia? Isso me deixou muito puto.” Assim falou Luiz Inácio Lula da Silva numa entrevista ao jornal Folha de S.Paulo em 2007, referindo-se à reportagem mais polêmica que eu escrevi em todos os meus anos como correspondente no Brasil.
O desabafo do presidente parece ser sincero, e contém várias frases de efeito. Só que, como muito do que Lula disse sobre tantas coisas ao longo dos anos, ele simplesmente não é correto.
O meu relacionamento com Lula, embora esporádico, data dos anos 70, quando ele estava surgindo como líder sindical e eu, um correspondente recém-chegado ao Brasil, o acompanhei e o observei. Já conversei bastante com ele, ouvindo declarações astutas e também bobagens, todas devidamente anotadas no meu bloquinho. Já tomei água, refrigerante e até uma cachacinha com ele. Então, fico perplexo quando ouço o presidente alegar que nunca teve nenhum contato comigo. A verdade é comprovadamente outra (...)"
Leitura agradável, fluente, ideal para a tranqüilidade dos finais de semana. O livro é polêmico: Rother ataca frontalmente a “inteligência” tupiniquim; aborda temas insossos como o trabalho escravo, as relações com a China, a formação do Partido dos Trabalhadores. Sobretudo, o autor busca contemplar em visão panorâmica os principais fatos históricos do país nos últimos trinta anos, à luz de um exame pouco convencional dos aspectos culturais do “povo brasileiro”.
Esse eu leio, e assino em baixo!
sexta-feira, 1 de maio de 2009
ENTREVISTA COM O AUTOR

Sílvio Lancellotti – Sinceramente, eu não curti Gomorra, nem o livro e nem o filme. Mas, tudo bem, ambos valem pela sua ousadia. Descendo de sulistas, na Itália, de sicilianos e de calabreses, ouvi inúmeras histórias na infância e na adolescência. Tive um tio-avô, Edoardo como o meu pai e o meu primogênito, assassinado, misteriosamente, em São Paulo. A curiosidade fermentou, naturalmente. Desandei a guardar material, artigos, recortes, livros, fitas-cassetes, bem antes dos DVS. Então, nos meados da década de 80, me interessei pela história do “capo” John Gotti. E passei a coletar, de maneira mais organizada, quase profissional, o que podia a respeito da “Cosa Nostra”. Graças a um amigo-irmão, Leonardo Regazzoni, que a Máfia mataria em Palermo, num assalto imbecil, à saída de um hotel, em 86, eu aprimorei os meus contatos e os meus conhecimentos. Foi ele, o Lindy, apelido do Leonardo, quem, em 84, me apresentou ao “super-capo” Giuseppe Bonanno. Outra bola de neve...
L&PM – Vê-se claramente no seu livro, que o ficcionista e o jornalista se confundem, às vezes, no que diz respeito ao enorme volume de informações sobre a Máfia e o crime organizado pelo mundo, já que o livro tem “locações” na Itália, Nova York e Brasil. Como o sr. chegou às informações e minúcias que o livro expõe, tanto nas relações entre os personagens mafiosos como na hierarquia e “estatutos” do crime organizado. Como foi o processo de criação desta história?
Sílvio Lancellotti – Como eu já disse, antes mesmo de pensar em Honra ou Vendetta eu já possuía um arquivo fenomenal sobre a “Cosa Nostra”. Originalmente, a minha idéia era fazer uma série de reportagens na Folha. Mas, na medida em que principiei a ampliar o meu material, me bateu a idéia de misturar a realidade e a ficção. Na infância, quando me perguntavam o que eu gostaria de ser, quando crescesse, eu respondia, na lata: “Claro, escritor!”. Já havia lançado livros de gastronomia e de esporte. Mas, a mistura de realidade e de ficção me empolgou, É, a bola de neve...
L&PM – Como surgiu a idéia de adaptar Honra ou Vendetta para a televisão?
Sílvio Lancellotti – Fiquei amigo do Lauro César Muniz, a quem já conhecia, eu como jornalista e ele como dramaturgo, ao prestar consultoria a uma saudosa pizzaria de São Paulo, de nome Paisà. Isso, no começo da década de 90. E mostrei ao Lauro pedaços do que seria, bem depois, Honra ou Vendetta. O Lauro gostou, me estimulou. Toquei o livro adiante, fiz uma infinidade de viagens, para entrevistas e para pesquisas, aos EUA e à Itália. Comprei uma tonelada de publicações, de livros, vi uma multidão de filmes. Então, em 2001, já na festa de lançamento de Honra ou Vendetta, o Lauro me disse que o livro daria uma minissérie. Na época, o Lauro ainda estava na Globo. Tentou e retentou, até com o apoio do Daniel Filho e do Roberto Farias. Mas, a Globo preferiu apostar em O Quinto dos Infernos. Num instante em que eu não acreditava mais na possibilidade de uma adaptação, já na Record, de novo a tal bola de neve, o Lauro me reprocurou – e vem aí "Poder Paralelo".
Sílvio Lancellotti – Já terminei o Vendetta, só!. Não sei se é um título perfeito – mas, eu gosto. A idéia da continuação da saga do personagem principal de Honra ou Vendetta, o Tony Castellamare, nasceu da pressão de quem leu e me pediu a seqüência. Em Honra ou Vendetta o Tony elimina todos os seus inimigos, menos um terrorista jordaniano, que escapole das suas garras, após desperdiçar uma grana formidável em um seqüestro fracassado. Em Vendetta, só!, eu simplesmente faço com que o tempo passe, se adiante dez anos, revivo o terrorista e a sua ânsia por se vingar da frustração anterior. E não deixo de combinar a verdade e a ficção. Até mesmo eu introduzo algumas novidades em relação ao crime organizado, como os golpes via Internet pelos estelionatários da Nigéria e como a questão das Tríades da China. E valorizo novos protagonistas, como os filhos de Tony, não nascidos em Honra ou Vendetta. Até o Mossad, o serviço secreto de Israel entra na história...
HONRA OU VENDETTA - SÍLVIO LANCELLOTTI

Seja em Palermo, Nova York, Rio ou São Paulo. Por essas quatro cidades trafegam Tony Castellamare e os seus homens, todos eles integrantes de um dos braços da Máfia, aquele auto-intitulado Velha Tradição – que batalha brutalmente contra a Nova e os seus traficantes de drogas. "Nova Tradição? De onde provém a expressão? E quem é Tony Castellamare? Apenas um milionário playboy nascido no Brasil e instalado na Sicília? Um mero aventureiro? Ou um mafioso de fato?"
O livro de Sílvio Lancellotti, mescla de fatos reais com ficção, principia no dia em que um atentado mata a mulher e os três filhos de Tony numa rua de Palermo. Impacto. Na sanguinária Guerra dos Tóxicos que assola a Itália, os Estados Unidos e o Brasil, um inédito assassinato de civis – ou seja, não-combatentes, inclusive crianças. Destruída a parte mais inocente e mais querida da Família, Tony meticulosamente planeja a sua vingança. Com o auxílio crucial de personagens misteriosos da Sicília, os seus protetores.
Lancellotti, descendente de italianos (sebenne che siciliano di corpo e anima) é jornalista, escritor, romancista e chef de cuisine. Trabalhou em algumas das maiores redações jornalísticas do país, como as das revistas Playboy, Vogue e Veja. Exímio conhecedor das cosi d'Italia, nos presenteia todas as manhas de sábado e domingo com seus comentários sobre o calcio. É autor das seguintes obras: 100 receitas de carnes, 100 receitas de patisseria e 160 receitas de molhos.
Honra ou vendetta traz na verdade três livros em um. O romance-verdade, de fato, uma cronologia de fatos importantes do século XX, relacionados com a história da máfia ítalo-americana, além de mini-biografias de personagens ilustres como os capo Callogero Vizzini e Giuseppe Bonanno.
Leitura de ótimo gosto.
quarta-feira, 22 de outubro de 2008
MORREU HOJE O VERDADEIRO INVENTOR DO CUBISMO

Em 1861 foi estudar em Paris, na Academia Suíça. Conheceu Camille Pissarro, que o incentivou a desenvolver a técnica impressionista em suas pinturas.
Voltando à Provence no início da década de 1880, afastou-se dos impressionistas e começou a desenvolver uma nova fase em sua carreira, chamada por ele de fase construtiva.
Pintou uma série de telas do monte Santa Vitória, as séries do Arlequim e das Cinco banhistas, a famosa tela chamada A ponte Maincy, muitos retratos, auto-retratos (acima, um dos mais expressivos) e naturezas-mortas.
Em 1890 começou a ter problemas de saúde. Passou, então, a desenvolver uma técnica, que muitos críticos de arte acreditam ter inspirado o cubismo – nesta fase, pintou nesta fase Jogadores de baralho.
Morreu de pneumonia em 22 de outubro de 1906, em sua terra natal.
Um ano depois, foi organizada em Paris uma grande exposição com seus quadros, que provocaram grande impacto em muitos artistas, entre eles, Henri Matisse e Pablo Picasso.
Cézanne foi um visionário, um artista à frente de seu tempo. Seu estilo inventivo, o uso da perspectiva, da composição e da cor influenciaram profundamente a arte do século XX.
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
LIVRO DO DIA: ENSAIOS REUNIDOS - OTTO MARIA CARPEAUX (1942-1978)

Tivesse atuado em um país em que a cultura é tratada com o respeito que merece, Otto Maria Carpeaux seria objeto de constantes homenagens em Academias de Letras e daria nome a diversos Centros Acadêmicos de jornalismo país afora. Como trabalhou no Brasil, onde erudição é quase palavrão, o jornalista (que nasceu na Áustria, mas viveu seus últimos 37 anos entre nós) só é lembrado pelos intelectuais, e em ritmo de conta-gotas. Vale a pena, contudo, aproveitar cada gota. A última delas é o aguardado segundo volume dos seus Ensaios Reunidos, lançado pela editora Topbooks, em parceria com a UniverCidade, longínquos nove anos depois de lançado o primeiro volume (esgotado nas livrarias). Culpa da má condição de conservação dos jornais de onde foram tirados os artigos.É um catatau de respeito, mais de 900 páginas, num total de 205 textos, escritos entre 1946 e 1971. Enquanto o primeiro volume reunia seis livros de crítica literária, o segundo é mais variado: traz ensaios publicados na imprensa sobre uma gama de assuntos, de filosofia a religião, de artes plásticas a poesia, de economia a sociologia. Ensaios Reunidos traz, por fim, três prefácios, sobre Manuel Bandeira (de 1946), Goethe (1948) e Hemingway (1971). O crítico contrariava a teoria (tão em voga na pós-modernidade) de que é impossível se especializar em mais de um assunto e que a melhor solução é ter uma noção superficial de cada um. É claro que é complicado comparar a situação de um jornalista hoje com a de um que atuou há décadas atrás - antes da internet e da avalanche diária de informações. Ainda assim, a bagagem intelectual de Carpeaux é assustadora. Não são poucos os brasileiros que o comparam - e alguns até o preferem - a Edmund Wilson, também famoso pela pluralidade de conhecimentos. Os partidários do "austro-brasileiro" garantem que, caso fosse norte-americano, francês ou inglês, seria tão conhecido no exterior quanto Wilson. De literatura e música erudita, Carpeaux sabia literalmente tudo. Escreveu sobre esses assuntos duas enciclopédias: História da Literatura Ocidental ("uma obra sem paralelos no Ocidente", glorifica o jornalista Sérgio Augusto) e Uma Nova História da Música. Era também especialista em política. Foi socialista convicto quando jovem e apesar de ter abandonado a ideologia, nunca deixou de lutar pela liberdade de opinião. Escreveu editoriais ferozes no Correio da Manhã contra o governo militar durante a ditadura e apoiava as passeatas organizadas por estudantes. Os únicos assuntos que não o interessavam eram cinema, futebol e música popular. A grande qualidade de Carpeaux, aquilo que faz com que ele mereça tanto disputar o título de maior crítico literário brasileiro, era a acuidade, a habilidade em abusar dessa erudição ilimitada e, ao mesmo tempo, escrever com a simplicidade de um bom texto jornalístico. Afinal, lembremos que boa parte dos textos de Ensaios Reunidos foi publicada em jornais como Correio da Manhã e O Estado de S.Paulo. Não há, portanto, vícios acadêmicos, intermináveis notas de rodapé, termos rococós e/ou prolixos e análises impenetráveis. Os ensaios são relativamente curtos (entre duas e cinco páginas) e aliam densidade analítica e clareza de linguagem em doses equivalentes. A quantidade de nomes de escritores, compositores, filósofos, historiadores e políticos citados por Carpeaux não deve ser lida como pedantismo. E se às vezes ele nos tira do sério com uma afirmação polêmica, como quando despreza os arabescos de Mozart ou afirma que "Chopin não é um Beethoven, tampouco é um Wagner ou um Debussy, não tinha o gênio dramático que aqueles três manifestam", na frase seguinte nos encanta: "(Chopin) não é dramaturgo e sim poeta lírico, e por isso as teclas brancas e pretas começaram a cantar quando tocadas pelas suas mãos, e atrás do mecanismo da grande caixa preta descobriu-se a alma que nela está presa". Carpeaux gostava de adentrar ângulos inexplorados dos assuntos - relaciona, por exemplo, Balzac ao marxismo e analisa os trechos bíblicos que poderiam ser transformados em contos literários. Nascido em 1900, Otto Maria Karpfen deixou a Áustria em 1938, quando o país foi ocupado pelos nazistas. Apesar de não ser judeu (tinha formação católica), foi perseguido por ter trabalhado como secretário particular do ex-primeiro-ministro Engelbert Dollfuss. De seu período na Europa, o causo mais memorável foi o seu encontro com Franz Kafka em Berlim, em 1924. Curioso em saber quem era aquela figura interessante e desconhecida, Carpeaux foi informado de que se tratava de um escritor de Praga, "que publicou uns contos que ninguém entende". Depois de algum tempo fugindo pela Europa, Carpeaux chegou ao Brasil em 1939, sem saber uma palavra de português. Em três anos aprendeu a língua (já dominava outros dez idiomas), afrancesou seu sobrenome, estudou tudo que deveria saber sobre o país e em 1941 se viu pronto para estrear na imprensa tupiniquim. Ofereceu ao Correio da Manhã um artigo justamente sobre Kafka, o primeiro texto sobre o autor tcheco publicado no Brasil. O crítico teve a sorte de aportar no país naquele que talvez tenha sido o melhor momento da história da inteligência brasileira. Atuavam nessa época abençoada os críticos Álvaro Lins, Antonio Candido e Wilson Martins (os dois últimos ainda estão vivos), os antropólogos Gilberto Freyre e Sergio Buarque de Holanda, os romancistas Graciliano Ramos, Clarice Lispector e Guimarães Rosa e os poetas Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes e João Cabral de Melo Neto. Sua grande vantagem é que já chegou com uma boa bagagem de cultura estrangeira. Só precisou correr atrás dos clássicos da nossa literatura. Carpeaux era introspectivo e saía pouco de casa, o que também explica a sua alta produtividade. O principal motivo da retração: era terrivelmente gago, o que lhe causava constrangimentos. Carlos Heitor Cony, em crônica publicada na Folha de S. Paulo, relata uma viagem que fez com o amigo por Minas Gerais em 1966: "Na viagem à capital mineira, Carpeaux ao meu lado, ele citou Kierkegaard. Começou a falar quando saímos de Juiz de Fora, "Ki...Ki...Ki..." e só completou o nome do autor dinamarquês em Barbacena, uns 80 quilômetros adiante". Além da gagueira, ele e a esposa (uma cantora de ópera) não gostavam de deixar sozinhos em casa os amados cães e gatos ("Eh-eh-eu nã-nã-não tenho a me-me-menor dú-vida de que-que-que eh-eh-eles sã-sã-são me-me-melhores do-do que-que os se-se-seres hu-hu-humanos", recorda Sérgio Augusto). Por essa insociabilidade, os contemporâneos de Otto Maria Carpeaux perderam a chance de conviver com uma mente abençoada. Ganhou a posteridade, que herdou um legado prolífico e luminoso. O que Carpeaux escreveu sobre: Kafka: "A incomensurabilidade do mundo material e do mundo espiritual - eis a atmosfera de Kafka. A ordem do Universo está perturbada quando espíritos aparecem no mundo da matéria; nisso, todos concordam. Conforme Kafka, 'só o mundo espiritual existe; o chamado mundo material é a encarnação enganadora do Demônio' - quer dizer, a ordem do universo de Kafka está perturbada porque corpos e objetos materiais aparecem entre os espíritos. Neste sentido, as ruas e casas das nossas cidades estão povoadas de espectros, dos quais os limpa-chaminés são os mais tremendos. Todos nós estamos misteriosamente transformados assim como Gregor, na Metamorfose, está transformado num inseto gigantesco e horroroso. Conforme aquela 'interpretação teológica', a Justiça mais injusta (no Processo) e a burocracia mais mesquinha (no Castelo) seriam transformações de executores da ira divina contra a humanidade culpada (...) O Deus de Kafka seria o próprio Diabo. Mas, no fundo, é só um gigantesco limpa-chaminés". Schubert: "As melodias de Schubert são em geral de simplicidade diatônica; aí está a parte espontânea, instintiva de sua arte. Mas, para compreender-lhes bem o sentido poético, é preciso dar atenção ao acompanhamento ao piano. No lied Despedida, que fala de uma despedida para sempre e de cavalos que esperam fora da porta - talvez sejam cavalos fúnebres -, o acompanhamento é uma pequena sinfonia de pateados impacientes e acordes sinistros, culminando numa dissonância audaciosa (lá menor e mi bemol maior ao mesmo tempo). Acordes assim, 'moderníssimos', oscilando entre menor e maior, são freqüentes na música de Schubert; transformam-lhe a melancolia comum dos bêbados em angústia demoníaca. Cai a noite e a gente desce daquelas colinas, procurando no escuro a cidade iluminada. Canções alegres perturbam, então, o silêncio dos bosques; mas o bêbado está em perigo de perder o caminho. Para Schubert, a noite significa profundidades noturnas, demoníacas, da obsessão". Vermeer: "O nome de Jan Vermeer van Delft é caro aos amigos da pintura. É verdade que esse mestre holandês da segunda metade do século XVII não possuía a profundidade religiosa de Rembrandt; basta comparar os apóstolos de Emaús deste último - a luz mística em torno da cabeça do Cristo, incendiando as tristes trevas que envolvem os apóstolos proletários - com o pobre quadro, no Museu Boymans, em Rotterdam, em que Vermeer representou a mesma cena, transformando-a em ceia de três camponeses triviais. Tampouco sabia o pintor de Delft conferir aos seus quadros o esplendor dos mestres da Renascença: estes transfiguraram os homens em personagens mitológicos, enquanto a deusa Diana de Vermeer, no Mauritshuis, é uma senhora insignificante, tomando banho de pés. Vermeer não era da estirpe dos lucíferes mediterrâneos nem daquela outra de profetas nórdicos. Só era pintor, só. Pintou cenas da simples vida caseira: moças, uma cozinha, a porta da rua".
Autor: Otto Maria Carpeaux
Editora: TOP BOOKS
Ano de Edição: 1999
Nº de Páginas: 930
quarta-feira, 13 de agosto de 2008
UM POETA AFORTUNADO

Por Silvia La Regina - UFBA
Hoje em dia, após muitos anos de uma intensa querelle, Gregório de Mattos e Guerra é unanimemente reconhecido como o maior poeta brasileiro do século XVII, assim como um dos mais importantes escritores barrocos de expressão portuguesa. A bibliografia sobre o autor inclui mais de trezentos títulos e, alem de numerosas edições nacionais das obras do poeta, existem traduções para vários idiomas, como o alemão, o francês, o italiano e ate o chinês. Infelizmente, apesar de sua importância, a obra de Gregório de Mattos ainda não foi objeto de uma edição critica, ou seja, não nos é possível saber exatamente quanto do que leva o seu nome realmente foi escrito por ele; assim como existem varias versões, ou variantes, de muitos dos poemas. Isso porque Gregório não editou nada durante sua vida (assim como o grande espanhol Quevedo, um de seus mestres ideais) e seus poemas circularam manuscritos no Brasil (onde não podia haver imprensa) e em Portugal, onde possivelmente a censura tenha impedido a publicação de obras por muitos lados irreverentes e muitas vezes obscenas. Assim posteriormente admiradores da obra gregoriana reuniram os poemas em códices manuscritos, hoje espalhados entre o Brasil, Portugal e os Estados Unidos (atualmente, existem 22 códices em 35 volumes), porém sem que houvesse controle sobre o que era e o que nao era verdadeiramente do autor, cuja fama póstuma permitia que se lhe atribuíssem algumas obras talvez de outros poetas menos conhecidos. Com certeza porém muitíssimas das obras que levam o seu nome foram escritas por ele, e caracterizam um versejador versátil e fluente, extremamente talentoso, de grande cultura, supostamente autor de mais de 700 poemas que, com a exceção da épica, abrangem praticamente todos os gêneros e estilos poéticos. A poesia satírica - a que o tornou mais famoso - a religiosa, a amorosa, a encomiástica, os relatos de pequenos ou grandes acontecimentos da vida colonial: todos estes gêneros foram praticados pelo poeta com êxitos igualmente válidos, ainda que se conheça mais a vertente satírica, especialmente quando aliada à componente erótica (que alguns no passado já chamaram de "pornográfica"). Neste âmbito, são justamente famosas suas sátiras a cidade da Bahia, aos governantes corruptos e, entrando aqui na esfera erótica, a freiras e padres muito licenciosos, assim como há uma série de poemas dedicados a diferentes prostitutas da cidade. Sua linguagem neste contexto torna-se particularmente crua e às vezes violenta.
Gregório compôs sonetos, décimas, motes e glosas, romances, só para citar os metros mais conhecidos, com grande variedade de rimas e ritmos, introduzindo na linguagem poética termos tupi e africanos ao mesmo tempo em que não renunciava às referencias clássicas e eruditas indispensáveis para o bom poeta da época . Como era inevitável, foi muito influenciado pela obra dos castelhanos Góngora e Quevedo, e traduziu obras dos dois mestres, assim como, fiel ao cânon retórico, imitou e recriou composições deles . Por isso durante muito tempo, e até poucos anos atrás, foi chamado de plagiário por quem não levava em conta o fato disto ser prática plenamente lícita e comum naquela época, e aliás indispensável para o poeta culto .
Obras de Gregório de Mattos.dir. de Afrânio Peixoto. 6 vols.Rio: Publicações da Academia Brasileira 1923-1933 (Sacra, I, 1929; Lírica, II, 1923; Graciosa, III, 1930; Satírica, IV e V; Ultima, 1933).
Poemas Escolhidos. Seleção, introdução e notas de José Miguel Wisnik.Sao Paulo: Cultrix,1976.
Obra Poética. Ed. James Amado, Notas de E. Araújo.2 vols. Rio: Record, 1990, 2ª edição.
Gregório de Mattos. Seleção de textos, notas, estudo biográfico, histórico e crítico por Antonio Dimas, São Paulo: Nova Cultural (Literatura Comentada), 1988.
Gregório de Mattos. Senhora Dona Bahia: Poesia Satírica. (seleção, introdução, estudo crítico, notas de Cleise Furtado Mendes, Salvador : EDUFBA, 1996.
sábado, 2 de agosto de 2008
CINEMA A LA CARTE: O PODEROSO CHEFÃO PARTE II

Início do século XX. Após a máfia local matar sua família, o jovem Vito (Robert De Niro) foge da sua cidade na Sicília e vai para a América. Já adulto
Mesmo não sendo uma obra tão inesquecível e cativante quanto a primeira, esta segunda parte da trilogia – “O Poderoso Chefão” possui uma história infinitamente mais complexa, madura e bem desenvolvida que a do primeiro filme. Em primeiro plano temos a continuação da saga de “Michael Corleone” que, após escapar ileso de um atentado planejado contra ele por um de seus inimigos, decide investigar quem seria o suposto mandante do homicídio. Apesar de não conter seqüências de ação, a estória “prende” o espectador pela maneira como vai sendo desenvolvida com o desenrolar do filme e pelo clima de mistério que esta confere ao mesmo (durante várias vezes flagrei-me perguntando: “Quem almeja matar quem e por qual motivo?”). Outro ponto forte desta estória é o fato dela retratar (ainda que seja apenas de soslaio) a Revolução Cubana que colocou Fidel Castro no poder. Em segundo plano temos a saga de “Vito Andolini” que, após ter os pais e o único irmão assassinados, foge de sua terra natal (“Corleone”) e ruma para “Nova York”, onde tem o nome alterado para “Vito Corleone”. Passam-se vários anos e “Vito” entra em conflito com “Don Fanucci” (um mafioso cruel que extorquia dinheiro dos comerciantes italianos residentes
Sinopse: Durante os anos 50, Michael Corleone (Al Pacino) está agora a frente da família e tenta expandir seus negócios por Las Vegas, Hollywood e Cuba. Paralelamente, conhecemos a interessante história de Vito Corleone (Robert De Niro), ainda jovem na Sicília, em 1910, e como ele chegou a Nova York e começou a contruir o seu império. Vencedor de 6 Oscar: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator Coadjuvante (De Niro), Melhor Canção, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Direção de Arte.
Título Original: The Godfather - Part II
Gênero: Policial
Origem/Ano: EUA/1974
Duração: 177 min
Direção: Francis Ford Coppola
Elenco:
Al Pacino .... Don Michael Corleone
Robert DeNiro .... Jovem Vito Corleone
Diane Keaton .... Kay Adams
Robert Duvall .... Tom Hagen
John Cazale .... Fredo Corleone
Talia Shire .... Connie Corleone Rizzi
Lee Strasberg .... Hyman Roth
Michael V. Gazzo .... Frankie Pentangeli
G.D. Spradlin .... Senador Pat Geary
Richard Bright .... Al Neri
Gastone Moschin .... Fanucci
Tom Rosqui .... Rocco Lampone
Bruno Kirby .... Jovem Clemenza
Frank Sivero .... Genco
Francesca De Sapio .... Jovem Carmella "Mama" Corleone
Morgana King .... Mama Corleone
Marianna Hill .... Deanna Corleone
Dominic Chianese .... Johnny Ola
John Aprea .... Jovem Tessio
Abe Vigoda .... Tessio
Gianni Russo .... Carlo
Giuseppe Silato .... Don Francesco
Mario Cotone .... Don Tommasino
Harry Dean Stanton .... Policial do FBI
Danny Aiello .... Tony Rosato
James Caan .... Sonny Corleone
Roman Coppola .... Jovem Sonny Corleone
Sofia Coppola .... Criança no barco na cena na Estátua da Liberdade
UM ASTRO NA CASA BRANCA

Por Fernando Serpone, de Washington (Folha de São Paulo)
A batalha pela Casa Branca entrou em sua fase mais negativa, que hoje se tornou acentuada com um novo anúncio em que os republicanos comparam Barack Obama a Deus e com o lançamento de um site em que ridicularizam o status de "celebridade" do senador democrata.
O ataque marca a fase mais negativa da campanha até o momento e chega após a acalorada troca de ofensas ontem entre os dois aspirantes à Presidência em que o republicano John McCain acusou Obama de explorar o fator racial.
A ofensiva republicana foi hoje um passo além, ao comparar diretamente Obama com Deus.
"Em 2008 o mundo será benzido", dispara um anúncio de um minuto intitulado "O eleito".
"Pode ver a luz?", se pergunta o narrador, que conclui questionando se Obama "está pronto para assumir a liderança?".
A esse anúncio da campanha republicanos se soma uma página interativa que oferece aos internautas a possibilidade de participar de um jogo em que devem adivinhar quem é o famoso --Obama é um deles-- através das diferentes declarações.A primeira adivinhação questiona quem "foi à Whole Foods (uma rede cara de produtos ecológicos) ultimamente e perguntou quanto cobram pela rúcula?".
As opções eram Cameron Diaz, Barack Obama, Jessica Biel e Matt Damon e a resposta correta era o senador democrata, que é mostrado pelos republicanos com óculos de sol e um grande sorriso.
A série de perguntas, na qual todos os representantes da brincadeira fazem comentários mais sérios que os de Obama, termina com o vídeo "Celeb", lançado na quarta-feira, e no qual o presidenciável democrata é comparado com Britney Spears e Paris Hilton.
Essa não é a primeira vez que usam vídeos de humor e a participação popular para deturpar a imagem de Obama.
Há poucas semanas, o mesmo site disponibilizava duas opções de vídeos com trilha sonora romântica para representar o amor da mídia em relação a Obama e quem acessasse decidiria qual seria a canção oficial.
"Os republicanos estão construindo uma imagem negativa de Obama como fizeram com (o candidato democrata à Casa Branca) John Kerry em 2004, que foi apresentado como um elitista distante do americano médio", disse à agência Efe Thomas Schwartz, professor da Universidade Vanderbilt, de Tennessee.
A pergunta sobre a rúcula e a rede de produtos ecológicos, que certamente não figura entre as opções mais populares dentre as lojas de fast-food, tentaria projetar essa imagem elitista.
Já Obama se limitou a encaixar os golpes baixos e se defender energicamente embora sem seguir, por enquanto, os passos da campanha de seu rival republicano, John McCain.
O senador democrata diz não querer recorrer aos velhos truques políticos e sustenta que a sua campanha será positiva e articulada em torno de sua principal mensagem de mudança e esperança.
Os especialistas advertem que as campanhas negativas funcionam e apontam que Obama poderia se ver forçado a revisar sua estratégia, mas alertam também do arriscado rumo pelo qual McCain optou.
Bruce Gronbeck, professor da Universidade de Iowa, diz que desde as presidenciais de 1988, nas quais George Bush, pai do atual presidente americano, concorreu e ganhou de Michael Dukakis, os republicanos utilizam os anúncios negativos de forma recorrente.
Leituras afins: Ernest Griffith. O sistema americano de governo. Editora Nordica. 1993. Preço: 10, 00.
TEMPO PRESENTE

(Por Miriam Leitão, de O Globo)
A ata do Copom tem uma coleção de boas notícias. O investimento cresceu 15% no primeiro semestre; a produção industrial aumentou 6% até maio — a de máquinas, 16%, e a de carros e eletrônicos, quase 14%. No primeiro semestre, foram criados 1,3 milhão de empregos formais; só a agricultura, e apenas em junho, contratou 92 mil. O comércio vendeu 14% mais. A má notícia: os juros continuarão subindo.
A ata empilha também os números ruins de inflação: IPCA em 12 meses a 6,06%, acima do centro da meta; apesar da queda da taxa de câmbio, os bens chamados de comercializáveis — na falta de um nome melhor para produtos afetados diretamente pelo câmbio — subiram 7,78% em 12 meses; no mesmo período, o Índice de Preços do Atacado subiu 17,9%. O IPA agrícola foi de 37,91%; nos 12 meses anteriores, terminados em junho de 2007, havia sido de 8,07%. Em todas as medidas, todos os núcleos, todas as formas de comparação, a inflação está subindo, afastando-se da meta, e mostrando pressões ainda por chegar ao varejo.
Essa má notícia é que faz com que todas as outras sejam vistas meio de lado pelo órgão que tem a ingrata tarefa de manter o olhar fixo na meta de inflação. Na última reunião do Copom, os juros, que vinham subindo a 0,5% a cada 45 dias, foram elevados em 0,75%. Os juros bancários já subiram para aqueles níveis que são impensáveis em outros países do mundo. Juros médios do crédito ao consumidor estão agora na ordem de 50% ao ano. Os para empresas chegam a 26%. Em que país do mundo, consumidor compra com o dinheiro a esse preço, e empresa gira seus negócios a esse custo? O Brasil é mesmo um país diferente.
Tão diferente que aquilo que assusta o mundo inteiro não faz uma ruga de preocupação na testa do Banco Central. Segundo a ata do Copom, foi mantido em zero o percentual previsto de reajuste da gasolina este ano. Em outros países, os consumidores vivem apavorados com o preço na bomba, que subiu fortemente, mas aqui tanto faz o petróleo estar a US$ 35, a US$ 146 ou a US$ 124, como fechou ontem, que o preço na bomba não muda.
Mesmo sem essa pressão, a inflação brasileira tem sido uma fonte de dor de cabeça. Pela sua já conhecida linguagem cifrada, o BC avisou que os juros continuarão subindo. “O Copom considera que a persistência do descompasso importante entre o ritmo de expansão da demanda e da oferta agregadas vem exacerbando o risco para a dinâmica inflacionária.” Ou seja, o Banco Central acha que as coisas não vão nada bem, e que o ritmo de crescimento do consumo precisa ser detido para que a inflação volte ao centro da meta no ano que vem. Este ano é impossível. O BC já trabalha com o olho em 2009, pois os juros demoram um pouco a produzir seu efeito na economia.
No governo cujo programa principal chama-se Aceleração do Crescimento, o Banco Central tem a ingrata e antipática tarefa de desacelerar o crescimento. Entrevistei ontem o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, cujo trabalho é justamente o de tentar acelerar esse ritmo, no comando do banco que financia a economia brasileira a juros baixos. Ele admite que o crescimento pode estar acima do potencial, pressionando a inflação:
— É uma questão de calibragem. A economia acelerou bastante no fim do ano passado, com o consumo das famílias crescendo perto de 9%, um aumento muito forte das importações que ainda persiste. São sintomas de um crescimento um pouco acima do potencial. A inflação, no início do ano, veio muito forte e está produzindo efeito muito preocupante sobre todos os índices de atacado. Isso recomenda uma moderação no ritmo de crescimento.
No entanto, o presidente do BNDES acha que o ajuste deveria poupar os investimentos, porque são eles que garantirão a oferta futura.
— Em moderando o ritmo de crescimento, devemos nos preocupar com a sustentação dos investimentos. Eu defendo que é mais racional que a moderação do crescimento seja feita de maneira mais intensa sobre o consumo do governo e o consumo privado e menos sobre os investimentos. A razão é simples: os investimentos produzem oferta futura, eles são portadores de processos de desenvolvimento. Seria pouco inteligente sacrificar principalmente os investimentos.
Na visão dele, porém, o governo tem apenas que manter o atual ritmo de crescimento das despesas. Ritmo que, pelos dados divulgados esta semana, teve pequena desaceleração. Outros economistas acham que o governo teria de cortar gastos mais fortemente se quiser evitar que, para combater a inflação, seja necessário reduzir drasticamente o consumo privado.
O consumo tem crescido tanto em bens que refletem aumento da renda quanto em bens de maior valor, que refletem a expansão do crédito, de acordo com a ata do Copom. O risco da elevação rápida da taxa de juros é sobrecarregar a família brasileira, atualmente já muito mais endividada que anos atrás. O impacto do aperto monetário será maior no orçamento doméstico.
Por ora, o país vive uma situação estranha: colhendo números excelentes de crescimento de vendas, produção, emprego, investimento, renda e crédito; o BC, no meio de um processo de aperto de juros que vai ainda mais longe, enquanto o mundo caminha para uma forte desaceleração, com a principal economia do planeta estagnada. Tempos desafiadores.
LEITURAS AFINS:
João Paulo dos Reis Velloso. Inflação, moeda e desindexação. Editora Nobel, 2007. Preço: R$ 37, 40.
quarta-feira, 30 de julho de 2008
LIVRO DO DIA: O PODER SIMBÓLICO

Sinopse: Coletânea de trabalhos recentes do escritor francês, "O poder simbólico" procura dar uma resposta às mudanças que têm ocorrido nas últimas décadas na área das ciências sociais e humanas.
Ficha Técnica:
Editora: Bertrand Brasil
Preço: R$ 39,20
terça-feira, 29 de julho de 2008
O HOMEM-MASSA NO PODER

Na platéia muita gente conhecida, integrante da elite econômica e política de São Paulo, gente que foi ali para ver e ser vista, como é da regra nesses eventos, e não pelo espetáculo musical em si. No programa a majestosa Nona Sinfonia, de Beethoven, considerada por muitos a composição mais bela de todos os tempos. De fato, essa música é capaz de elevar a mais endurecida alma aos cumes do prazer estético. Foi um raro privilégio estar ali.
Na platéia também estava o governador José Serra. Discreto, vestia roupas simples, sem gravada e com camisa que lembrava o indefectível jeans, o uniforme do homem-massa contemporâneo. Não pude deixar de lembrar-me do filme O SEGREDO DE BEETHOVEN, da diretora polonesa Agnieszka Holland. Nas cenas finais do filme podemos ver a estréia da peça em Viena, diante da nobreza e dos governantes principescos. Talvez o compositor nunca imaginasse que um espetáculo solene, em que sua música estivesse no programa, viesse a ter um governante assim trajado, de forma bastante inadequada para o evento e em contraste singular com muitos da platéia. Contraste ainda maior com o maestro, envergando a indumentária tradicional, e seus músicos, todos vestidos a rigor. Não preciso lembrar que, na recriação do filme, o mais elegante na platéia da estréia era o governante e não o maestro.
Mas o governador, pelo menos, entrou mudo e saiu calado, mesmo tendo recebido algumas chochas palmas. Evitou um comício desnecessário. Pior mesmo foi o secretário da Cultura, João Sayad, que representou o poder constituído na solenidade. Subiu ao palco em mangas de camisa, sem gravata e envergando uma calça de jeans desbotada, o emblema mais característico do homem-massa, usando sua indefectível barba por fazer, outro emblema dos intelectuais militantes, os sacerdotes do deus-Estado que governam em nome da massa. Que contraste! Nada poderia ser mais plástico para representar os tempos de hoje: um homem-massa governante, vestido a caráter. Um “intelectual” no poder. Sayad parecia um centauro barbudo, metade homem, metade bicho, quer dizer, homem-massa, que é a besta ela mesma.
A figura apequenada do secretário de Cultura estaria mais adequada, com o seu traje, em algum festival de música pop ou mesmo de funk. Diante daqueles músicos solenes, daquela platéia sofisticada e da música celestial de Beethoven foi um despropósito só. Quando a figura majestosa do maestro Kurt Mansur adentrou ao recinto é que o contraste ficou mais acentuado. A digníssima figura do velho artista, absolutamente de acordo com o momento, a música a ser regida, o recinto, a platéia e tudo mais, ofuscou os representantes dos homens-massa tornados governantes, ali presentes.
Quando a massa se eleva a primeira coisa que a distingue é a deselegância, a incapacidade de ter bons modos ao vestir-se e ao falar. O idioma ficará irremediavelmente corrompido, assim como os modos. A decadência pode ser percebida até mesmo nas salas de concerto, um dos recintos mais tradicionais, como bem pude testemunhar.
Meu caro leitor, nem tudo está perdido, todavia. Pior mesmo se, ao invés dos governantes, fossem os jovens músicos a vestir jeans. Aí tudo estaria irremediavelmente desesperançado. O poder pode ocasionalmente perder a majestade, não a música de Beethoven e as orquestras que o honram. Entendo que é mais fácil mudar os governantes do que os usos dos artistas eruditos, pois estes têm pudor estético. Menos mal.

