
No filme "Terra em Transe" (1967), obra-prima de Glauber Rocha, Paulo Martins(Jardel filho) é um jornalista que pode ser classificado, grosso modo, como um "idealista". Inicialmente ligado à figura política conservadora de Porfírio Diaz (com quem forma, juntamente com Silvia - personagem de Danuza Leão, um triângulo amoroso), Martins, após sucessivos exames de consciência é gradativamente cooptado pela ativista Sara (Glauce Rocha) a apoiar o populista Felipe Vieira (José Lewgoy), na tentativa de criar um movimento dito "revolucionário" que tem como objetivo reduzir a miséria e a injustiça em Eldorado.
Há um diálogo no filme, de grande simbolismo, que representa a dualidade dessa personagem. Em um ambiente de grandes incertezas políticas, Sara pergunta:
Sara: _ Por que Paulo? por que você se lança nessa desordem?
Paulo (rindo amargamente): _ Que desordem?
Sara (observando a multidão): _ Olha!... Vieira não pode falar.
Paulo: _E durante mais de um século, ninguém falará!
Sara: _ Você joga Vieira no abismo! (...)
Paulo: _ Eu? ... o abismo está aí, medonho. Todos nós estamos nos dirigindo para ele...
Sara se atira nos braços de Paulo, implorando:
Sara: _ Não é culpa do povo! Não é culpa do povo! (...)
Paulo: _ Mas o povo corre atrás do primeiro que lhe erga uma espada ou uma cruz (...)
O pessimismo e, ao mesmo tempo, ambiguidade política de Paulo Martins é uma prova inconteste da duplicidade de sentido proposta por Glauber para constituir uma das personagens mais marcantes de todos os tempos no cinema nacional. No entanto, o mau uso da imagem (com toda sua dinamicidade), com a intenção de promover a afirmação de classes é tendências políticas é lamentável.
Quando Jefferson Domingos de Assunção escreve no site, www.cineplayers.com, que "Terra em transe, de Glauber Rocha, mais do que qualquer outro, é um filme fruto de seu tempo, a revoltosa década de 1960 (...) considerado revolucionário demais e um perigo para a juventude da época, socialista e antiimperialista" ignora que o gênio de Glauber foi capaz de produzir uma obra que está além de definições polarizadas politicamente. Acerca da personagem de Paulo Martins, por exemplo, bem definiu Hélio Pelegrino em artigo no velho JB:
"Há o poeta, Deus meu, o sórdido, o belo, o generoso, o ingênuo, o puro e maculado poeta Paulo Martins, homem dividido como um pedaço de víscera é dividida por uma faca, homem que sangra, e sonha, se encontra, e se aliena, e dança, e regouga, e tenta, e busca, e ama, e rodeia. Paulo Martins é a consciência em transe de Eldorado". Hélio Pellegrino, Jornal do Brasil, Rio, 30/08/81
Desse modo, é incoerente com a proposta de Glauber a tese que sustenta Terra em Transe como um manifesto revolucionário, parte integrante da geléia-geral das esquerdas na década de 60 no Brasil. O que Glauber propõe é ir além da mera dicotomia entre esquerda e direita: pensar a decadência das estruturas políticas do país, assim como o papel dos atores políticos, a partir das fraquezas e incoerências que se evidenciam no momento da ação política.
Pensemos, portanto, a aplicação na atualidade desse conceito.


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