quarta-feira, 29 de agosto de 2007

COM MEDO DE "DAR COM OS BURROS N'ÁGUA"


A retirada segura das tropas americanas do Iraque vem sendo o assunto mais quente dos debates entre os pré-candidatos democratas à presidência. Mas a falta de consenso entre eles sobre a melhor maneira de promover essa retirada vem colocando em dúvida a própria competência dos democratas. O debate realizado em Iowa provou que o atoleiro iraquiano dividiu os 8 candidatos democratas em dois grupos distintos. E, pela correlação de forças entre esses grupos, já se pode antever a estratégia que um futuro presidente democratá irá adotar no Iraque.
O primeiro grupo tem seu nome mais forte no governador do Novo México, Bill Richardson, atualmente em quarto lugar na preferência dos democratas. Se for eleito em 2008, Richardson pretende promover a retirada total das tropas em oito meses. Ele argumenta que não há possibilidade de pacificar o Iraque enquanto houver um único soldado americano por lá. Essa tese também é defendida pelos sunitas e por parte dos xiitas, ou seja, encontra apoio em atores estratégicos para o processo de paz.
Já o segundo grupo tem como expoente mais destacado o senador Joe Biden. Mesmo sem chances de conquistar a indicação do partido, ele é bastante influente. Na sua visão, não há logística que permita a saída segura das tropas no tempo previsto por Bill Richardson. Além disso, Biden acredita que será preciso manter uma força residual no país enquanto se negocia o grande acordo para reconciliar as três grandes etnias iraquianas. Posição semelhante tem Hillary Clinton, a favorita até aqui entre os democratas.

Coube a Bill Richardson a tarefa de provocar o embate entre os dois grupos no último debate. Ele perguntou a Joe Biden qual o tamanho dessa força residual: "Seriam 25 mil, 50 mil ou 75 mil soldados?". Biden não quis oferecer um número preciso. No seu plano para o Iraque, ele estima esse contigente em 20 mil soldados (1/6 da força atual). Mas a questão principal, segundo o senador, é como sair do Iraque sem deixar o país em frangalhos. Só a fixação de zonas autônomas para curdos, sunitas e xiitas pode criar as condições, na sua visão, para pacificar o país.
Nesse ponto, Hillary se distancia de Joe Biden. Ela insiste na tecla de que que é preciso pressionar (ainda mais) o governo iraquiano para apressar a aprovação de medidas necessárias para a união nacional, como a polêmica lei do petróleo. Barak Obama, por sua vez, assume uma posição intermediária entre Hillary Clinton e Joe Biden. Ele não pretende retirar todas as tropas do Iraque, mas não quer que a criação de zonas autônomas seja uma imposição americana. "Porque se isso acontecer", afirma Obama, "a situação pode piorar ainda mais".
Resumindo a opereta, a retirada do Iraque é o ponto-chave para a eleição de um presidente democrata. O partido não pode abrir mão disso. A questão é como será conduzida essa retirada. Considerando que o grupo de Hillary e Obama tem mais "bala na agulha" e que um dos dois deve ser o novo presidente, não é nenhuma maluquice prever que os democratas vão levar cerca de 2 anos para retirar a maior parte das tropas. Mas a tal "força residual" permanecerá.
Quanto às zonas autônomas, há uma forte probabilidade de que venham a fazer parte da estratégia do próximo presidente. Principalmente se Hillary escolher Joe Biden como seu secretário de Estado.

A ÁGUIA DE HAIA


A Segunda Conferência da Paz foi um dos momentos culminantes da carreira de Rui Barbosa. Designado embaixador extraordinário e plenipotenciário e delegado para representar o Brasil em Haia, deixou sua marca, firmando o dogma da igualdade jurídica dos Estados. Fortes ou francos, ricos ou pobres, grandes ou pequenos, o que estava em jogo era a igualdade e a soberania. A participação de Rui na Conferência dá-lhe a reputação de defensor das pequenas potências.

Sua participação tem início em 1906, quando o diplomata Manuel de Oliveira Lima indica na imprensa o seu nome para representante do Brasil na Segunda Conferência Internacional da Paz, em Haia, tendo o apoio de Edmundo Bittencourt do jornal Correio da Manhã.

Em maio de 1907, Rui Barbosa, vice-presidente do Senado, é nomeado embaixador extraordinário e plenipotenciário e delegado do Brasil. Ele chega a Haia em junho, onde será presidente de honra da 1ª Comissão, e membro inscrito nas 1ª e 4ª comissões.

A atuação de Rui Barbosa foi decisiva na recusa da classificação das nações nos dois tribunais internacionais a serem criados. Pronunciou-se inúmeras vezes contra o projeto do tribunal de presas, que dividia os países de acordo com a tonelagem de suas marinhas mercantes, mostrando a injustiça que se cometia principalmente com as nações latino-americanas. Em seguida, descobriu que o projeto norteamericano para a composição do tribunal de arbitragem era ainda mais injusto.
Imediatamente Rui Barbosa comunicou ao barão do Rio Branco a distribuição de juízes proposta dizendo que se "tamanha e amarga humilhação" se verificasse, não haveria como permanecer dignamente na Conferência. O projeto apresentado pelos Estados Unidos, Inglaterra e Alemanha não mudou o teor de desigualdade na representação das nações no tribunail.
Rui Barbosa, de acordo com suas convicções e com as instruções recebidas do Brasil, já havia se manifestado contra a arbitragem obrigatória e tornou-se ainda mais incisivo ao perceber que os instrumentos da arbitragem estariam dominados pelas grandes potências. Assumiu então a posição de defender o princípio da igualdade entre os Estados soberanos e a resistência à depreciação da América Latina.

Com a adesão de muitos outros Estados, o princípio da igualdade foi vitorioso e a constituição do tribunal de arbitragem foi aprovada sem que a sua composição ficasse determinada. Foi uma vitória da habilidade de Rui Barbosa e da representação brasileira, mas não uma conquista permanente, pois, após as grandes guerras, o sistema internacional seria constituído a partir de instituições que consolidariam a hierarquização e a desigualdade entre as nações.

"Vi todas as nações do mundo reunidas, e aprendi a não me envergonhar da minha. Medindo de perto os grandes e os fortes, achei-os menores e mais fracos do que a justiça e o direito" Rui Barbosa

VAN GOGH E NIETZSCHE


Estou em rápida passagem por Amsterdã e hoje tive a rara oportunidade de visitar o museu dedicado a Van Gogh. Em belíssimo prédio modernista, que contrasta com a arquitetura tradicional da cidade, aloja o melhor do pintor holandês. Algumas de suas telas causaram-me forte impressão e não pude deixar de meditar sobre o significado delas, bem como da biografia do pintor, um grande gênio.
Os paralelos com Nietzsche saltam aos olhos. Se este morreu louco Van Gogh tinha seus momentos de franca loucura, chegando a se internar numa clínica na França. Em seus acessos chegava ao limite da auto-mutilação, tendo certa vez cortado fora um pedaço da orelha esquerda. Ficava louco de pedra. Por fim, atirou em si mesmo em meados de 1890 num gesto de loucura final. Um ano antes Nietzsche afundou-se na própria insanidade, dela nunca mais voltando. Ambos foram um fracasso comercial durante a própria existência, ninguém comprava suas obras.
O paralelo pode ser estendido também ao poeta Walt Whitman, formando o trio que moldou a filosofia, a arte e a poesia no século XX. Viveu no mesmo interregno de tempo. São, esses homens, o requinte da modernidade, seu produto mais notável. Gravada em uma parede do museu pude ler que Van Gogh dizia que sua técnica era “natural”, a palavra mágica da modernidade, repetida para dar ênfase ao uso da razão, em oposição a qualquer coisa que tivesse conteúdo religioso-transcendente. Quão diferentes são seus temas daqueles dos tempos renascentistas! Deus está fora de sua agenda (a exceção é o quadro Pietà, que mostra um Cristo disforme, o luto fechado da Mãe, a sombra sobre o céu visto desde dentro do Sepulcro, como se o Mal o levasse e ao Mundo junto. É o Mal, e não Cristo, quem está verdadeiramente compondo o quadro). Só homens, mulheres e a paisagens são retratados.
Whitman, por seu turno, cantou o Mal como ninguém o fez, como pude demonstrar em recente comentário sobre sua obra. Nietzsche e Van Gogh morreram loucos. Whitman, empobrecido e esquecido, morreu solitário até mais não poder. Será o “naturalismo” (uso a palavra no contexto, e não como o termo técnico empregado na história da arte) uma forma de loucura? Ou será a modernidade ela mesma uma loucura que devora, um a um, os seus autores?
Não escapa aos olhos de quem vê os quadros do pintor que seu traço está carregado de sombras do Além, que nada têm de “natural”. A Terra é retratada devastada, assim como seus personagens. É sua técnica, na verdade, o anti-naturalismo, apropriadamente apelidada de impressionismo. Somente um estudo sob a ótica da psicologia analítica poderia revelar o sentido (se há algum) do conjunto da obra. Van Gogh pintou a loucura do Ocidente moderno mais do que a própria loucura. Sua mente delicada e triste queimou-se ao revelar essa realidade que se dava aos seus olhos, a realidade das sombras, dos traços desfocados, dos conteúdos tétricos, a morte e o Além como presenças em cada uma das peças. Por isso sua obra é triste, embora emblemática para a compreensão do nosso tempo.
Não me escapou que na peça Noite Estrelada uma lua é retratada em foram de Crescente, símbolo largamente enfatizado por Whitman. Quando há igrejas retratadas é em paisagens de cemitérios, com corvos e outros símbolos das trevas em derredor, o mesmo pássaro preto cantado por Whitman. A impressão que causa é de grande terror, no qual vivia mergulhado. O Mal em ação. Como em Whitman. Como em Nietzsche. Não é ao acaso que escreveu: “A noite é mais ricamente colorida do que o dia”, algo perfeitamente absurdo. Retratou as trevas, não a luz, algo bem paradoxal para um pintor.
Há um elemento de narcisismo em seus muitos auto-retratos. É um símbolo da modernidade, que coloca o Eu como centro de tudo, o perfeito demiurgo a criar o Mundo. É como se o artista quisesse nos dizer que ele criava não apenas o Mundo, mas a si mesmo. Uma pista sobre o pensar desses tempos de decadência do Ocidente. Sua morte trágica nega veementemente essa pretensão da modernidade, que é só arrogância, fogo fátuo, o homem arvorando-se a assumir o lugar de Deus e destruindo-se no processo. Tem sido tragédia sobre tragédia, e não apenas no plano pessoal. Os milhões de mortos do século XX são o resultado de toda essa loucura infernal. Quantos mais morrerão?

(Post do Blog de Nivaldo Cordeiro - http://www.nivaldocordeiro.net/vangoghenietzsche.html)

Até que ponto, a obra de arte é produto da loucura? Como um homem pode manifestar sua loucura na obra? No decorrer dos tempos o artista elabora metamorfoses que imprimem diferentes estilos, provocando imagens fortes no expectador engajado. No entanto, como considerar nesse universo tão amplo da obra de arte elementos tão distintos? Percebe-se que são formadas duas correntes: a primeira, de artistas que agem sob o delirius trmendus, dentre eles Van Gogh. Outros, por sua vez, são profundamentes meticulosos, agem sob a égide da racionalidade e comprometimento com a perfeição do leitmotiv. Dentre esses, pode-se falar em Picasso, alcançando a exaustão das formas; Renoir, na sua leveza calculada e Miguelangelo, em seu árduo trabalho monumental. Seriam todos eles loucos? ou apenas gênios imbuídos em diferentes inspirações? Comente.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

"Existe apenas um bem, o saber, e apenas um mal, a ignorância" Sócrates


"Tristes são as pessoas e as coisas consideradas sem ênfase. Assim versejou o grande Carlos Drummond de Andrade. A julgar pelo tumulto ideológico que suscitou minha campanha para este calmo sodalício, não sou uma pessoa considerado sem ênfase. Chego a este lugar em idade crepuscular, o que tem a vantagem de permitir-me saborear melhor um dos poucos prazeres - a cultura - que sobrevivem à desconstrução da juventude." trecho do discurso de posse de Roberto Campos na Academia Brasileira de Letras

Espaços de discussão são criados para incentivar a proliferação de idéias férteis, raciocínios dotados de isenção ideológica e interesse crítico, que possibilitem a descoberta de antagonismos, e denunciem o enraízamento de sofismas no cerne do pensamento. Vive-se em um momento delicado da história dos homens, onde as certezas foram substituídas por opiniões frágeis, que não resistem ao menos rigoroso critério investigativo. O interesse pelos elementos formadores de nossa cultura é perdido, sobreposto por uma avalanche de desconstrutivismo e desrazão.

Aos poucos, tornam-se frívolas nossas convicções, tornam-se ridículas e muitas vezes até criminosas nossas atitudes diante da realidade. Somos levados gradualmente ao esquecimento. Como objetos nas sombras, ficamos deformados, acreditando numa beleza que já não vem do belo, e sim, de tendências que são rapidamente substituídas no curso dos acontecimentos.
Ouve-se pouco e quando se ouve, ouve-se mal. Fala-se muito, e diante de platéias surdas, ouve-se aplausos e falsos deuses são venerados.

Este espaço é uma tentativa de expôr pensamentos, investigar temas das mais diferentes naturezas do conhecimento humano, propôr questionamentos. É também uma pausa para contemplar o belo, em todas as suas faces esquecidas, na solidão escondida nesta selva de pedra.

Aproveitem.