
L&PM – Seu romance Honra ou Vendetta, publicado em 2001, trata de um assunto que segue extremante atual. Uma história do mesmo universo de Gomorra, um dos grandes best-sellers internacionais do momento. Como surgiu o seu interesse pelo assunto?
Sílvio Lancellotti – Sinceramente, eu não curti Gomorra, nem o livro e nem o filme. Mas, tudo bem, ambos valem pela sua ousadia. Descendo de sulistas, na Itália, de sicilianos e de calabreses, ouvi inúmeras histórias na infância e na adolescência. Tive um tio-avô, Edoardo como o meu pai e o meu primogênito, assassinado, misteriosamente, em São Paulo. A curiosidade fermentou, naturalmente. Desandei a guardar material, artigos, recortes, livros, fitas-cassetes, bem antes dos DVS. Então, nos meados da década de 80, me interessei pela história do “capo” John Gotti. E passei a coletar, de maneira mais organizada, quase profissional, o que podia a respeito da “Cosa Nostra”. Graças a um amigo-irmão, Leonardo Regazzoni, que a Máfia mataria em Palermo, num assalto imbecil, à saída de um hotel, em 86, eu aprimorei os meus contatos e os meus conhecimentos. Foi ele, o Lindy, apelido do Leonardo, quem, em 84, me apresentou ao “super-capo” Giuseppe Bonanno. Outra bola de neve...
L&PM – Vê-se claramente no seu livro, que o ficcionista e o jornalista se confundem, às vezes, no que diz respeito ao enorme volume de informações sobre a Máfia e o crime organizado pelo mundo, já que o livro tem “locações” na Itália, Nova York e Brasil. Como o sr. chegou às informações e minúcias que o livro expõe, tanto nas relações entre os personagens mafiosos como na hierarquia e “estatutos” do crime organizado. Como foi o processo de criação desta história?
Sílvio Lancellotti – Como eu já disse, antes mesmo de pensar em Honra ou Vendetta eu já possuía um arquivo fenomenal sobre a “Cosa Nostra”. Originalmente, a minha idéia era fazer uma série de reportagens na Folha. Mas, na medida em que principiei a ampliar o meu material, me bateu a idéia de misturar a realidade e a ficção. Na infância, quando me perguntavam o que eu gostaria de ser, quando crescesse, eu respondia, na lata: “Claro, escritor!”. Já havia lançado livros de gastronomia e de esporte. Mas, a mistura de realidade e de ficção me empolgou, É, a bola de neve...
L&PM – Como surgiu a idéia de adaptar Honra ou Vendetta para a televisão?
Sílvio Lancellotti – Fiquei amigo do Lauro César Muniz, a quem já conhecia, eu como jornalista e ele como dramaturgo, ao prestar consultoria a uma saudosa pizzaria de São Paulo, de nome Paisà. Isso, no começo da década de 90. E mostrei ao Lauro pedaços do que seria, bem depois, Honra ou Vendetta. O Lauro gostou, me estimulou. Toquei o livro adiante, fiz uma infinidade de viagens, para entrevistas e para pesquisas, aos EUA e à Itália. Comprei uma tonelada de publicações, de livros, vi uma multidão de filmes. Então, em 2001, já na festa de lançamento de Honra ou Vendetta, o Lauro me disse que o livro daria uma minissérie. Na época, o Lauro ainda estava na Globo. Tentou e retentou, até com o apoio do Daniel Filho e do Roberto Farias. Mas, a Globo preferiu apostar em O Quinto dos Infernos. Num instante em que eu não acreditava mais na possibilidade de uma adaptação, já na Record, de novo a tal bola de neve, o Lauro me reprocurou – e vem aí "Poder Paralelo".
L&PM – O sr. está em fase de conclusão do romance Vendetta, só!. Poderia nos adiantar alguma coisa sobre o enredo?
Sílvio Lancellotti – Já terminei o Vendetta, só!. Não sei se é um título perfeito – mas, eu gosto. A idéia da continuação da saga do personagem principal de Honra ou Vendetta, o Tony Castellamare, nasceu da pressão de quem leu e me pediu a seqüência. Em Honra ou Vendetta o Tony elimina todos os seus inimigos, menos um terrorista jordaniano, que escapole das suas garras, após desperdiçar uma grana formidável em um seqüestro fracassado. Em Vendetta, só!, eu simplesmente faço com que o tempo passe, se adiante dez anos, revivo o terrorista e a sua ânsia por se vingar da frustração anterior. E não deixo de combinar a verdade e a ficção. Até mesmo eu introduzo algumas novidades em relação ao crime organizado, como os golpes via Internet pelos estelionatários da Nigéria e como a questão das Tríades da China. E valorizo novos protagonistas, como os filhos de Tony, não nascidos em Honra ou Vendetta. Até o Mossad, o serviço secreto de Israel entra na história...


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